Crítica semanal Lucas Rodrigues

A QUESTÃO DA CABEÇA

A literata Eliane Robert Moraes em um certo capítulo do livro Corpo Impossível nos introduz ao quinto volume da revista Documents, revista criada por Georges Bataille em parceria com Carl Einstein, Michel Leiris e diversos outros artistas e etnógrafos da Paris surrealista. No volume em questão são apresentados “documentos de desfiguração”, apresentando imagens da decomposição da figura humana, em especial ligados a questão da cabeça.

Adentramos a questão da cabeça para pensar num corpo que acesse uma outra realidade que não a dos corpos humanizados como os conhecemos. Tanto a deformação exagerada da própria face quanto a máscara obrigam o rosto humano a tornar-se qualquer coisa. O rosto-sem-rosto é o que desloca grande parte – senão toda – do que espera-se de um corpo humanizado. Podemos citar aqui o ensaio de Michel Leiris citado por Moraes onde o  mesmo discorre sobre as máscaras de couro em encontros sadomasoquistas: a cabeça sem boca e sem devora o rosto e o faz desaparecer, é o que afirma.

Em A Bandeira e a Máscara um estudo sobre a Folia de Reis do antropólogo Daniel Bitter o autor fala dos palhaços, seres mascarados e zombeteiros que brincam na Folia, como seres liminares, transicionais e marginais. O ser mascarado que é o palhaço enquadra-se em outro registro dentro da Folia de Reis: eles são parte de um sagrado impuro que a máscara os proporciona, enquanto mascarados não podem adentrar igrejas ou chegarem muito próximos de elementos sacros, como imagens de santos e a bandeira utilizada como símbolo máximo de devoção na Folia de Reis.

Cobrir o rosto é encarnar o caos. Mais do que ocultar a face, as máscaras estão ligadas a um outro registro de produção visual, onde impõem aos rostos novos símbolos e sentidos. Os registros fotográficos do artista novaiorquino Phyllis Galembo vão ao encontro dessa via de uma nova produção de pensamento para a ação de cobrir o rosto. O livro do artista “Mexico Masks Rituals” resgata a tradição de cobrir a cabeça como um ato cerimonial, estético e sagrado que alargam as possibilidades do corpo humano e o enquadram  em estado de incerteza e instabilidade. O movimento de colocar as máscaras rituais dentro da produção de arte contemporânea pode fazer com que as imagens de Galembo reative uma fantasia primitivista já devorada pela arte vanguardista europeia, contudo creio que as imagens do fotógrafo funcionem mais como uma interlocução e zona de contato entre a estética contemporânea ocidental e a produção tradicional de máscaras do que a proliferação de uma fantasia puramente exotizante.

A QUESTÃO DA CABEÇA (dentro)
Máscara da artista russa Daria Kikel

 

A questão da cabeça não se constrói somente em torno de máscaras eróticas e rituais. Os trabalhos de Andrés Gudiño e de Daria Kikel envolvem a produção de máscaras que, em certa medida, reproduzem uma anatomia do rosto humano, mas rompem com a mesma, seja tanto por buscarem uma aparência mais cartunesca, como na produção de Gudino, quanto em uma imagética mais voltada ao decadentismo, como a produção de Daria Kikel. Em ambos os trabalhos a questão da cabeça se faz presente por embaralhar as noções anatômicas do rosto humano com uma certa estética que não buscam uma realidade fidedigna da face.

A negação corpo que nega a face humana em desfigurações possíveis do corpo humano que testam as possibilidades de existência do ser. A arte contemporânea bebe da fonte do mascarar-se para fazer corpos possíveis dentro do impossível: um corpo sem cabeça.

 

 

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Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos.

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