Crítica semanal Pietro De Biase

A MÔNADA CERÂMICA

Flanar pelas cidades de Calvino é se dar conta que as cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa. É um bom ponto de partido para compreender a obra de Athos Bulcão.

Athos 1

Nascido no Rio de Janeiro em 1918, foi no então recém pousado plano piloto brasiliense dos idos de 1960 que Bulcão encenou seus primeiros atos. Atos cujos mananciais estavam fisiologicamente ligados às correntes construtivas hasteadas pelo desenvolvimento cultural da América Latina do período de 1940 a 1960. Importante digressão sobre esse momento histórico diz respeito ao desejo construtivo de planejamento do ambiente social segundo os moldes de uma racionalidade modernizante em detrimento da mentalidade julgada colonizada.

Em meio a jusante desse igarapé desenvolvimentista, a obra de Athos se apresenta como interessante contraponto à arquitetura plástica e ordenada de Brasília. Para além da monumentalidade do seu eixo, das curvas de seus vértices e de sua visualidade quase utópica, Brasília padece da escala humana. E é justamente sobre esta escala que o artista desenvolveu sua pesquisa.

A partir de imensos painéis de azulejos, Bulcão estrutura sua obra a partir de uma geometria imperfeita. Os seus ângulos, assim como as cidades sonhadas por Calvino, são veículos de uma estética política que longe de simplesmente obliterar poéticas coloniais, busca redefini-los, aproveitando da porosidade das fronteiras entre a arte e a arquitetura, destacada em Brasília.

 

Athos 3

Ao utilizar um elemento associado ao luso-colonialismo como o azulejo, que ora adornava hotéis eclesiásticos e repartições oficiais, o artista subverte a sua função fracionada colonial, como parte de uma imagem figurativa, elevando-o à categoria de mônada cerâmica. Única e bastante. Suficiente ao olhar.

Em posse de sua mônada, o artista explora sua relação com a geometria e a cor. Compõe murais com rigorosa imprecisão e reveste como escamas, as grandes massas concretas da nave de Brasília. Nesse aspecto, vale trazer a baila o caráter colaborativo dos murais cerâmicos do artista, cujas combinações plásticas foram concedidas aos trabalhadores – candangos na leitura escultórica de Bruno Giorgi. Essa passagem reflete uma interessante inflexão na obra do artista, que, ao outorgar a montagem dos azulejos nos murais ao juízo criativo dos operários, engendra uma interrupção na mecanicidade, abrindo caminho para a reflexão estética.

Em Athos, o azulejo é o indivíduo. E o mural, o coletivo. Indivíduo que, como uma mônada, é único. Próprio. Mas que tem natureza gregária. Aglutinando-se em redor de sonhos. Sonhos que constroem cidades. Ainda que as regras sejam absurdas como aquelas impostas pelo terreno intemperizado do inospitaleiro planalto central brasileiro.

Decerto, a leitura cognitiva da obra de Bulcão se embrenha na poeira marmórea dos palácios brasilienses. É uma obra aberta. Nua. Entorpecente. Cravejada de seres oníricos, cujos sonhos meridionais de igualdade, eram aguardados com a inauguração da nova capital.

Lispector, certa feita, declarou que Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Uma estrela espatifada. É… Pode ser… Talvez Athos pudesse epilogar que os sem imaginação, buscam refúgio apenas na realidade.

Athos Bulção - Escola Classe SQN 408
Foto: Ricardo Padue/Tríade

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s