Crítica semanal Daniela Avellar

UM FUTURO PRESENTE

O texto que acompanha a exposição O agro não é pop, de Denilson Baniwa, e assinado pelo mesmo, fala sobre agentes químicos que vem sendo usados para matar, dizimar e silenciar. E de como aos extermínios e tomadas de territórios indígenas nunca é dada devida visibilidade pelos meios de comunicação. Os trabalhos que integram a mostra expõem a publicidade brasileira (“O agro é pop” é uma notória campanha criada e veiculada pela Rede Globo) e suas estratégias ardilosas, além de falar sobre outras formas de exploração. Ao mesmo tempo, as obras trazem consigo elementos de resistência.

Apesar do horror do cenário atual, não podemos refletir sobre o passado através da farsa. Os ataques aos direitos indígenas no Brasil não são exclusividade do agora. A última década, pela qual passam governos progressistas, fora marcada por retrocessos e um aprofundamento da política de morte perpetrada pelo Estado e direcionada a povos e territórios ancestrais.

Com o agronegócio sendo um grande inimigo das lutas indígenas hoje, é nas ações coletivas dos povos ancestrais (seja pela valorização de seus saberes, pela preservação de seus territórios ou mesmo pela ocupação dos espaços institucionais), em suas múltiplas nacionalidades, que vemos das mais interessantes alternativas ao modelo de desenvolvimento dominante. Empreende-se aí uma cosmopolítica, um pensamento a favor do mundo em sua pluralidade onde a natureza enfim deixa de ser um mero recurso ou mesmo um fundo estático passivo sob o qual agimos sem freio.

Em entrevista para a Revista Usina[1], em junho de 2017, Denilson Baniwa diz que caberia ao artista através do seu trabalho transformar o que é dito, uma história oral indígena, em alguma coisa que as pessoas reconheçam, algo para ser visto. Isso seria necessário pois na cidade tudo é visual e as pessoas possuem um grande apreço pelo domínio da visualidade. O artista complementa o raciocínio, alegando que o ocidental colocou uma série de camadas de véus culturais em seus olhos. Com isso, nos tornamos incapazes de perceber que as coisas estão todas vivas, que elas tem espírito.

Podemos dizer que o contemporâneo é um conjunto múltiplo, marcado por conflitos e contradições. A arte contemporânea, portanto, seria definida por uma lógica disjuntiva. Alojada no presente, mas a medida em que esse marco temporal é composto por diversas camadas. O moderno durante o século vinte apontava para o futuro, para o novo. O presente contemporâneo é mais uma multiplicidade de tempos simultâneos. As obras que compõem O agro não é pop evocam uma experiência de tempo fraturada, ocupando múltiplos e simultâneos registros temporais e carregando consigo um elemento disjuntivo. Isso aparece principalmente em trabalhos como Cunhatain (2018) e Awá uyuká kisé, tá uyuká kurí aé kisé irü (2018). Dessa forma é possível dizer que a arte indígena não só ocupa um lugar nas discussões institucionais da arte contemporânea, como implica na necessária reformulação da própria teorização em torno da mesma e suas concepções rigorosas, a medida em que prescinde de orientação e referencial eurocêntricos.

Seriam os trabalhos presentes em O agro não é pop capazes de furar as tais duras camadas que se sobrepõem de forma tão impetuosa no olhar ocidental, chegando a amortecer nossa sensibilidade? Senti falta de mais espaço para a montagem das obras. A exposição fica circunscrita a apenas uma sala no segundo andar do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica e me parece, de alguma forma, contida. Na entrevista supracitada, Denilson fala que definitivamente a arte indígena não é só decorativa, que ela também faz pensar. Lembro que Davi Kopenawa diz que o homem branco ao dormir só sonha consigo mesmo. As diferentes estratégias poéticas que encontramos na exposição, como vídeo, pintura, lambe-lambe, realizam uma denúncia direta e extremamente necessária, clamando por uma visibilidade ainda escassa frente a violência e ao extermínio de povos indígenas. Mas para além disso, fazem alusão para uma fabulação de outro mundo, compreendendo que essa imaginação de um futuro possível pode ser uma ferramenta poderosa de enfrentamento. Os trabalhos de Baniwa operam em uma construção de futuro que não necessariamente encontra-se alojado no horizonte do ponto de vista ocidental. Pois o tempo em questão não se trata de uma seta apontada para frente. Ele já está acontecendo.

[1] https://revistausina.com/artes-visuais/upurandu-resewara-entrevista-com-denilson-baniwa/

 

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

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