Crítica semanal Vanessa Tangerini

A dream you dream alone is only a dream

Abrindo as portas de um mundo íntimo, o Museu de Liverpool (Inglaterra) apresenta – até 3 de novembro do presente ano- a exposição Double Fantasy John & YokoO interessante da proposta é justamente aquilo que o nome já evidencia: essa não é uma exposição sobre o John Lennon (como poderíamos esperar, já que se trata da sua cidade de origem), mas tampouco é uma exposição sobre a Yoko Ono (como a que receberam Buenos Aires e São Paulo, respectivamente, em 2016 e 2017).

Crítica Sábado 17-08 Imagem 1

Seu título, Double Fantasy, significa literalmente “fantasia dupla” e parece remitir a esses anos (1966-1980) que a curadoria trata de reconstruir cronologicamente: anos de sonhos compartilhados, de uma fantasia entre pares. Ao mesmo tempo, Double Fantasy faz referência ao último álbum que ambos lançaram juntos em 1980, dias antes do assassinato de Lennon.

A narrativa busca contar essa história através das palavras dos seus protagonistas. Obras de arte, objetos pessoais, fotografias, música, filmes, entrevistas – entre materiais nunca antes exibidos- e frases ditas pelo casal ocupam as salas de uma exposição abarcadora. Os ambientes revelam desde o âmbito pessoal da sua relação, até o âmbito criativo e ativista. No teto, estruturas cilíndricas tentam mimetizar o céu em seu interior; outras levam impressas mensagens da campanha Imagine Peace.

Crítica Sábado 17-08 Imagem 2

Um dos aspectos mais destacáveis da exposição é o fato dela colocar os seus dois protagonistas em um nível de igualdade, tanto em quanto figuras artísticas, como em relação ao material exposto e ao espaço dedicado a cada um. Se levarmos em conta o “mito popular” machista -e sem fundamentos- de que Yoko foi responsável pelo fim dos Beatles, resulta significativo o fato de que em Liverpool (cidade cuja grande parte do turismo se refere à banda) se apresente esse tipo de relato.

Quando Yoko e John se conheceram, a mesma já era uma artista contemporânea de envergadura internacional: participou do movimento Fluxus, experimentou sonoramente com John Cage e, também, foi considerada a primeira artista em realizar uma performance feminista com “Cut piece”). A artista parece ter sido naquele momento tudo aquilo que o homem médio branco-ocidental temia: mulher independente, oriental e artista de vanguarda.

Ao estabelecer um relato 50-50*, tal como era relação do casal, a exposição deixa visível o potencial da Yoko como artista e pensadora, ao mesmo tempo em que nos revela a influência de um no outro, como se retroalimentaram e se complementaram como amantes e artistas, potencializando suas capacidades criativas.

Double Fantasy termina como uma experiência emotiva e nos faz pensar que, graças a Yoko, John se transformou no melhor que ele podia ser.

Crítica Sábado 17-08 Imagem 3

—-

* “Yoko was well into liberation before I met her. She’d had to fight her way through a man’s world – the art world is completely dominated by men- so she was full of revolutionary zeal when we met. There was never any question about it; we had to have a 50-50 relationship or there was no relationship.” – John Lennon, 1971

Imagem de fundo: White Chess Set, Yoko Ono, (1996/2018)

 

 

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s