Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

A revolução Padín

Daqui a algumas semanas Clemente Padín, poeta uruguaio, completa 80 anos de vida. Seus poemas visuais estão entre os principais hits da poesia experimental. Eles aliam a clareza do texto e da mensagem com a operação crítica da linguagem e da política. 

“Paz/pan” e “dolar/dolor” compõem-se com base em pares mínimos de palavras e são dispostos na superfície explorando trocadilhos visuais: o Z de “paz” transforma-se no N de “pan” quando ambas as palavras se encontram no vértice de 90o que as reúne na superfície impressa; já a palavra “dolar” se repete 5 vezes na página, e a cada vez a vogal “a” vai se deformando, simplificando-se graficamente, assemelhando-se a uma gota, até se tornar um “o”, vogal ou número zero, a dor ou a falta de dinheiro. 

Em ambos os casos, o que é material (pão, dólar) e o que é simbólico (dor, paz) estão muito próximos de trocar de lugar e de valor, revelando, nesse jogo de oposições, o funcionamento contraditório da realidade. Não só não há paz enquanto houver fome e miséria, como também a experiência do sujeito, com fome ou dor, comparece na representação social que esses poemas produzem.

Noutro texto emblemático de Padín, a frase “La poesía / no es / suficiente” está grafada de maneira que a última palavra, em vez de completar a terceira linha do cartaz, cai pela superfície impressa em direção ao desenho de um prato vazio aos pés de um menino sentado no chão com a mão na boca: ele olha de esguelha para o leitor aproveitando as últimas migalhas da refeição. A diatribe sobre a poesia funciona como comentário da realidade social latino-americana, e a imagem vale mais do que as palavras a não ser que as palavras sejam insuficientes. 

Parece que essa ironia com o valor das palavras, como se o discurso crítico resultasse de uma operação de defasagem do conteúdo ideal da paz, do dólar, da poesia, se repete na obra de Clemente Padín, como se percebe no livro-objeto Instrumentos/74 (instrumentos mecánicos para el control de la información), editado nesse ano de 2019 em Montevidéu pela Microutopias. 

Em cada uma das 11 páginas que compõem o livro, a palavra “revolution”, impressa ao pé da página como que carimbada, sofre alguma intervenção realizada por algum dos seguintes instrumentos: borracha, pincel/lápis/tinta, mãos, ácido, ralador, tesoura, escova, fogo, fita adesiva, revólver. Os instrumentos para intervir na “revolução” são objetos de trabalho doméstico ou de escrivaninha, à exceção das mãos e do revólver. E são justamente estes os instrumentos que promovem algum efeito mágico, na medida em que as mãos que rasgam a palavra impressa são mãos singulares de um corpo anônimo desconhecido – pouco nos importa a singularidade, por outro lado, da tesoura ou a marca da fita adesiva –, e os pequenos furos na página não foram feitos por um revólver, são obra de um singelo furador de papéis. 

Os gestos de intervenção no livro-objeto de Padín alteram a legibilidade da “revolução”, provocando um paradoxo segundo o qual a ação sobre a linguagem ou sobre a realidade (“revolução” aqui é ato e palavra) pode atrapalhar ou interromper a interpretação do mundo a partir de sua leitura. O desafio lançado consiste em criar uma maneira de ler no momento mesmo em que a linguagem e o mundo estão a perigo, resistem à interpretação – o momento da guerra, da dor, da fome, do autoritarismo. Palavras de ordem não bastam, e só mesmo a insuficiência da poesia pode deseducar a leitura do mundo, de modo que ler e agir se tornem operações reciprocamente necessárias.

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

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