Crítica semanal Mariane Germano

sobre descosturar papéis

Nossas escolhas de vestimentas dizem muito sobre quem somos nós e como nos dispomos ao mundo. A exposição Costura-se para dentro de Adrianna Eu usa de forma sensível a costura e itens têxteis como metáfora para a criação de narrativas. Seu nome-trabalho funciona como prefácio à sua obra. A confusão que se instaura ao usar o pronome “eu” para se referir a outra pessoa enfatiza o fato de que uma das palavras mais utilizadas no discurso se trata de uma abstração. Em meio a algumas possibilidades de confusão discursiva, incluindo parecer estar falando sobre mim mesma, percebo que o outro também sou eu. A subversão da identidade se coloca no térreo da Galeria Luciana Caravello de muitas formas. Há um trabalho constituído por uma pequena prateleira com dois colarinhos, um rosa e um azul, chamado “meninas usam rosa e meninos usam azul”. Esse é um dos exemplos do uso de peças de construção de vestimentas para a desconstrução da identidade de forma extremamente política e poética. Em diálogo com ele, está exposto também um pequeno manual de costura para criação de roupas masculinas e femininas. A evocação dos papéis de gênero e sociais também é representada pelo uso de botões como pessoas, tornando-os personagens de uma história em um teatro no qual o palco é feito de tecido branco.

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“toda coragem de se saber só”

Para assistir à videoinstalação “A costura de si”, é necessário antes encarar a si mesmo em um espelho que fica em um antigo separador de ambientes rosa claro, elemento que remete à imagem do feminino, assim como a costura. Ao sentar na cadeira por trás dele, encontra-se uma videoarte na qual há uma performance em que linhas vermelhas são costuradas nas pontas dos dedos de uma mão. A música de fundo soa como unhas arranhando uma lousa – o desconforto é o mesmo de se sentir costurado numa convenção social que não te contempla.

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“a costura do erro”

A maior obra da exposição é “A costura do erro”, na qual uma grande máquina de costurar está cercada de montes de linha vermelha. As parcas da mitologia grega cortavam o fio da vida para terminá-la, já na obra de Adrianna Eu, o fio é vermelho como sangue e transborda pathos. Vestir-se é um ato político, assim como as narrativas que criamos e com as quais escolhemos ou não corroborar. Costura-se para dentro, que fica em cartaz até 22 de setembro, recorda que estamos constantemente em produção de caráter “manufatural” de nossa identidade e desvendando a dos outros.

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé.

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