Crítica semanal Lucas Rodrigues

Floresta de Novos Símbolos

Fazendo alusão ao livro “Floresta de Símbolos” do antropólogo Victor Turner, apresento  trabalho do fotógrafo suíço Yann Gross, que conheci na décima quarta edição da revista de fotografia do Instituto Moreira Salles, a Zum. Embora o livro de Yann, “O livro da selva: histórias contemporâneas da Amazônia e suas bordas” e a obra do citado antropólogo estejam distantes geográfica e temporalmente, creio que a alusão é válida: enquanto Turner discorre sobre os rituais e aspectos do povo Ndembu, do noroeste da Zâmbia, no centro-sul da África, Gross cria sua visão de uma Amazônia contemporânea que vai além do Brasil, chegando ao Equador, Colômbia e Peru, repleta de cruzamentos culturais e novos simbolismos.

Gross captura desde personas rituais, em seus trajes e máscaras, até um cachorro-do-mato preso em uma corrente, uma Miss da Confraternidade Amazônica e um garoto indígena com o corte de cabelo do jogador de futebol Neymar, esse último presente na capa do fotolivro do artista. As fotografias de Gross revelam uma Amazônia pitoresca, com ares de um realismo mágico a lá Gabriel García Márquez, onde a borda do imaginário popular sobre as sociedades indígenas choca-se com a estética do mundo contemporâneo, criando um embaralhamento e estranhamento para o leitor nas mais de duzentas páginas de seu livro.

FLORESTA DE NOVOS SÍMBOLOS (dentro)
Fotos de “O livro da selva”, de Yann Gross

Uma parte do livro é dedicada a apresentar artefatos do mundo indígena, como se fosse um colecionismo do artista. Essa coleção no coração do livro de Gross abre margem para uma discussão em torno da produção artística indígena dentro do mundo contemporâneo, por exemplo. Segundo a antropóloga especialista em arte indígena, Els Lagrou, não existe uma diferença entre “arte” e “artefato” para os povos indígenas, ou seja, não há distinção entre objetos para se contemplar e objetos para se usar – e essa distinção não fora nem tomada pelo campo da arte, por ser algo que é definidor para o campo de arte. Os artefatos presentes no livros de Gross seriam então produtos de uma arte e estética indígenas? Como pode o universo da arte criar esse campo de classificação?

Trabalhos como o de Yann Gross revelam aspectos realísticos dos povos indígenas, enquanto antropólogos debruçam-se para criar teorias que compreendam melhor o mundo social dos indígenas, como o perspectivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro, “O livro da selva” não deixa que o imagético dos povos tradicionais seja tomado por uma romantização de imagens construídas em poses artificiais e adornos nem tão utilizados pelos indígenas, como é o caso das fotografias de Sebastião Salgado sobre os povos tradicionais. Diferente do brasileiro, o suíço cria uma estética a cores, em sua maioria suaves, revelando uma certa degradação do território indígena e a apropriação dos mesmos para com os objetos do mundo branco. Vale ressaltar uma das últimas imagens do livro: um indígena usando um típico boné street de aba reta.

Cruzamentos. Fronteiras. Borramentos.

Embaralhamento.

Lucas.png 

Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos.

 

 

 

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