Crítica semanal Daniela Avellar

ABDIAS NASCIMENTO EM TEMPORALIDADE CIRCULAR

A exposição Abdias Nascimento, espírito libertador, ocorrida no MAC-Niterói e encerrada no último domingo reuniu cerca de trinta obras do escritor, artista, teatrólogo, político e importante ativista na luta antirracista do Brasil. A pintura de Abdias (1914-2011) explora a cultura religiosa afro-brasileira e o culto dos orixás. As obras expostas no MAC-Niterói percorrem o universo simbólico do candomblé, da luta libertária africana e da diáspora. Por vezes fazem lembrar os ideogramas Adinkra, referentes à um ancestral conjunto ideográfico do povo Akan (antiga Costa do Ouro e atual Gana), uma entre distintas formas de sistema de escrita do continente africano antecessoras aos hieróglifos egípcios.

O conjunto de pinturas expostas no redondo salão central do museu compõem, em formato circular, uma cosmologia que reúne ancestralidades, seres vivos e outros elementos da natureza criando uma unicidade entre formas de vida. A organização em tal formato é possibilitada, evidentemente, pela arquitetura do MAC mas também se constrói simbolicamente pelo jogo constituído entre os trabalhos de Abdias Nascimento. Nossa experiência corporal normalmente denota que fazer repetidas voltas na mesma rotação causa vertigem. Só o que o torpor, nesse caso, pode ser capaz de ampliar as condições de possibilidade de conhecimento, desarticulando o pensamento racional e lógico. O círculo aí evoca ideias como dinamismo, comunicação, interação e a capacidade de criar a partir da desconstrução e da desordem.

abdias_quilombismo
Abdias Nascimento. Quilombismo (Exu e Ogum), 1980, EUA.

No pensamento nagô e seu interculturalismo não há apenas um só caminho para resolver uma questão. O que existe é uma variação contínua de percursos. O jogo é de dinâmica de possibilidades e combinação de imagens e realidades, como na prática da capoeira e suas transições de posição. Um Oriki diz que “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje” – uma palavra transita entre mundos; aqui passado, presente e futuro não são instâncias que fragmentam o tempo. A temporalidade circulando entre perspectivas realiza o giro, movimento não retilíneo que convoca o aumento de variações, onde a realidade aparece como um conjunto de imagens simbólicas: ideogramas, uma escolha cromática precisa, as abstrações geométricas tão características de Abdias, mas nesse caso as referências ocidentais comuns merecem ser devidamente dispensadas.

O aspecto pictórico da ampla obra, atuação e luta (e portanto vida, a medida em que todas essas instâncias se misturam) de Abdias Nascimento deve ser celebrado. A exposição realizada pelo MAC-Niterói bordeja na abertura do tempo e colabora para uma necessária transformação junto ao pensamento anticolonial e antirracista, construindo um espaço de circulação e respiro para obras de uma figura tão importante cujo pensamento perfura determinada camada temporal e se faz presente.

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

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