Crítica semanal Mariane Germano

a jornada do herói, da costura aos pixels

O trabalho de Angela Od, que esteve exposto na Galeria Movimento de junho a julho deste ano, leva o nome de um dos jogos mais famosos dos anos 90: Final Fantasy, que marcou uma geração de gamers. Em seus trabalhos, a artista insere seu protagonista, “o cara da espada”, em uma jornada do herói em formato de videogame, porém, sua plataforma é o bordado, usando deste material primitivo para reforçar as narrativas que permanecem no inconsciente coletivo e na cultura, que foram atualizadas para os meios digitais e suas imagens computadorizadas.
Os bordados de Angela assumem a estética dos jogos de videogame, nos quais o protagonista trafega por suas fases da esquerda para a direita. A cada passo em direção ao futuro, um novo caminho, vilão ou obstáculo se apresenta. Os principais desfechos são os mesmos já conhecidos – morte, renascimento ou evolução.
Exemplos desta relação entre narrativas clássicas e a atualidade são os trabalhos que dialogam com imaginários bíblicos e medievais, como um bordado que remete a Adão e Eva – uma representação dos dois personagens, uma figura feminina nua segurando uma maçã e o cara da espada. Há, também, uma videoarte com a estética de um videogame clássico, na qual o mesmo personagem passa por obstáculos para chegar até uma moça que está nua em uma espécie de redoma, e é preciso lutar com cobras para salvá-la. O vídeo, chamado Ele não conhecia o caminho para Final Fantasy 2, mostra que cada vez que ele é abatido por um dos seus inimigos, a mulher veste uma peça de roupa, colocando em questão os papéis de gênero em sociedade – uma falha da masculinidade na tentativa de salvar uma mulher que não quer ser salva.
Angela também insere esses discursos da heroicidade na contemporaneidade em uma referência ao pop – uma placa de neón, recurso muito utilizado pela publicidade. Este, que assim como a videoarte, não está pendurado como os outros trabalhos em bordado, mas está no chão. Nele, o cara da espada derrota uma cobra. O uso do rosa em seus trabalhos, que faz a cor rebater nas paredes, pintando o espaço, também diz muito sobre papéis de gênero – o cara da espada usa um vestido azul em uma epopéia contemporânea.
De forma simples e até mesmo cômica, Od coloca em pauta questões muito trabalhadas também pelo artista Harun Farocki, como a inserção de imagens computadorizadas e narrativas de videogame em discussão sobre consumo de imagens e de papéis sociais em trabalhos artísticos. Nesta exposição, o protagonista comete suicídio para representar o fim do herói na sociedade contemporânea. Há uma certa caricatura de histórias que são consumidas em sociedade sem muito questionamento.
Assim, é possível encontrar em suas obras uma exploração dessas narrativas em plataformas diversas, que vão de materiais como linha e tecido até a computação
gráfica.

 

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé.

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