Crítica semanal Daniela Avellar

CORPO CONTIDO, VIDA EXPANDIDA

Um corpo contido está circunspecto, refreado e comedido. Mas se expande no encontro com o outro, no intercâmbio entre meios. Corpo Contido é o nome da primeira individual do artista Ygor Landarin, ocorrida na Galeria INOX durante o mês de Agosto desse ano. A exposição é acompanhada de um texto arrebatador de Agrippina Roma Manhattan, quem também assina a curadoria. Li o tal escrito assim que soube da exposição pelas redes sociais, mas só tive tempo de ir à galeria nos momentos finais da mostra. As palavras de Agrippina ressoaram em minha cabeça e serviram como uma espécie de introdução ao contexto que encontraria.

O texto supracitado começa falando sobre ecdise, processo evolutivo animal, podendo acontecer através de uma mudança de exoesqueleto em alguns ou uma troca de pele em outros. Considero forte a presença do não-humano no trabalho de Ygor Landarin. Já haviam muito me chamado a atenção suas Influênzias (2018) e Colônias (2017). Vejo em trabalhos do artista conjuntos ou amontoados em expressivo agrupamento, evocando ideias como matilha e multidão. O corpo, no caso, pode ter a ver com uma gestão de corporalidades coletivas. E quando desatinado, o oposto de contido, pode aparecer composto pelo entrelaçamento de recursos naturais colhidos e outros materiais diversos.

Um corpo coletivo se libera na exposição e no espaço da galeria tomando diversas formas, como seres que incrustam no espaço. Da coleta ao molde. Do concreto à abstração. O exepcionalismo humano pode nos cegar? Até onde vai a autonomia humana? A coletividade coopera na abertura de um modo de pensamento menos exclusivista, que faz resistência frente à delimitação de uma linha precisa que afirma os que tem direito à uma vida qualificada em oposição aos que não tem. O conceito de vida pode ser explorado de uma maneira outra. Para que isso seja experimentado, vale pensar a matéria não como algo inerte que ganha forma através de um projeto ou plano determinado.

No moldar, no fazer, tato e mão em contínuo processo é que trazemos as coisas de volta à vida. Dar forma é movimento, ação vital. É sobre o gesto de unir-se às forças do mundo que trazem à tona a forma, como uma simbiose. O trabalho de Ygor Landarin não trata-se de matérias passivas subjugadas à um projeto totalmente racional de forma e com fins pré-determinados. Em Corpo Contido o que encontro me aparece mais como um grupo de coisas do que de objetos. Digo isso pois os trabalhos do artista são como conjuntos de porosidades vivas em entrelace e alastramento. Não há fato consumado nem meras superfícies externas, a coisa é lugar de acontecimentos vários. Coisas vazam e se misturam, criam novas formações, rotas, retornos e refúgios. O corpo expande e contrai, transformando-se em constante processo de mutação.

*Foto de capa por Michelle Blättler

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellarvive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

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