Crítica semanal Vanessa Tangerini

Trilogia latino-americana – Parte 1: Unida ou Submetida

A cor verde é freqüentemente utilizada para simbolizar a natureza como, por exemplo,  a bandeira do Brasil onde ela alude à mata nacional. Na poesia “Romance Sonâmbulo” (1924) de García Lorca, onde aparecem os versos “Verde que te quiero verde,” a cor surge como um símbolo de esperança. 

Na produção do artista Nicolás García Uriburu (1937-2016) o verde começa a invadir as obras até predominar-las e tornar-se uma marca registrada do artista, como ocorre com o azul em Yves Klein. Em Uriburu, o verde é esperança, mas também é denúncia. Para o artista, o seu trabalho denunciava o antagonismo entre a natureza e a civilização. É assim como o verde em Uriburu aparece como ruptura. 

Crítica Sábado 31-08 Foto 1

Na obra “Portfolio (Manifiesto)” de 1973, o artista apresenta uma série de serigrafias que são tomadas pelo verde. A cor é utilizada para colorir rios, fluxos de água, mapas e até o próprio corpo do artista – incluindo o seu sexo – como forma de denúncia. Entre as serigrafias encontramos um mapa da América Latina, totalmente dominado pela cor/denúncia, com o enunciado: “Latinoamerica: Reservas naturales del futuro. Unida o sometida.

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Ao realizar um mapa verde e monocromático da região latino-americana, o artista apresenta duas proposições: por um lado, a preservação dos recursos naturais; por outro lado, a união dos países latino-americanos como um bloco. Hoje, ao contemplar esse mapa é difícil não associar-lo às imagens da região tomada pelo vermelho como conseqüência do recente incêndio na Amazônia.  

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O vermelho e o verde, ironicamente, são cores complementárias. Um indica crise e preocupação. Sangue. O outro, natureza e esperança. Vida. Neste sentido, estamos longe de alcançar o que García Uriburu propunha em suas obras. Pelo contrário, parece que cada vez nos afastamos mais. 

Muitas das suas obras foram produzidas em um contexto que abarcou o maio francês, as ditaduras latino-americanas e o conseqüente surgimento de movimentos sociais e de união entre os países da América Latina. Trazer-las para o atual contexto sócio-político nos permite concluir que elas não perderam vigência: primeiro, porque ainda não superamos o antagonismo entre natureza e civilização; depois, porque retrocedemos a um momento de divisões no qual os estados latino-americanos são cada vez mais administrados sob a influência dos países mais ricos, em lugar de fomentar um bloco econômico entre os seus pares.

Contrariando o vermelho da tragédia, a obra de Uriburu talvez possa ressurgir para que, através dos seus mapas, das suas águas e seus verdes, possamos voltar a sonhar com uma América Latina livre e unida, tal como o artista havia pensado. Afinal, esta talvez seja uma das poucas formas possíveis de resistir à submissão dos capitais internacionais. 

Imagem de Fundo:Arriba el sur” de Nicolás García Uriburu

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

 

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