Crítica semanal Mariane Germano

CAMPO-ESCOLA

Ao sair de CAMPO, exposição que abriu no dia 24 no Parque Lage, com curadoria de Ulisses Carrilho, algumas expressões começaram a aparecer em minha mente, despretensiosas. Decidi dar atenção à elas, me permitindo um processo de investigação cada vez mais intuitivo e menos guiado por regras, definições e conceitos. Foram elas: Campo de visão, campo magnético, pesquisa de campo, campo de batalha.

CAMPO está como lugar, como referencial de um lugar e a experiência do tempo-espaço, como bem demonstrado no trabalho de Ernesto Neto, Paff – um tubo que atravessa o espaço expositivo e lembra um buraco no universo, prestes a devorar o espaço. A este, associo “campo magnético”. Nomeada por palavra que designa aspectos tanto físicos como abstratos, a exposição volta seu olhar à própria Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com trabalhos de ex-alunos dela. Observando com cuidado suas narrativas, a curadoria enriquece ainda mais seus debates ao trazer uma proposta como esta após a exposição-manifesto Arte Naïf: nenhum museu a menos. Qual o dever de uma escola de artes? É importante que um lugar como esse se coloque em constante processo de auto-observação.

Por esse viés, é interessante ressaltar o trabalho de Daniel Senise, O sol me ensinou que a história não é tão importante, uma parede composta por blocos de publicações de arte trituradas e engessadas. A este trabalho, associo a expressão “pesquisa de campo”, por evocar reflexões sobre a (super)valorização acadêmica, muitas vezes cristalizada e impenetrável, podendo se tornar uma barreira para a fruição estética.

Todos os trabalhos, em maior em menor escala, parecem evocar uma espécie de monumentalidade em um estudo da espacialidade. Colocam-se em diálogo campo e corpo – o corpo também como campo, em trabalhos como os de Beatriz Milhazes e Laura Lima – respectivamente, Gamboa II e Dopada. O primeiro, um grande móbile com elementos coloridos, em uma sala de chão dourado, no qual pode-se pisar descalço; O segundo, um trabalho-performance no qual uma mulher diferente é convidada, a cada dia, a tomar um remédio que a induzirá ao sono dentro de uma espécie de casulo. A estes, designo “campo de visão” e “campo de batalha”.

Desta forma, CAMPO discute a importância do espaço de uma escola de artes, evidenciando a relevância de seus alunos e de suas produções no processo de construção da identidade da escola. É o caso da Série Macunaíma, de Luiz Zerbini, que remete à gravação do filme na piscina da escola, há 50 anos, e também o de Adriana Varejão, que ecoa a mesma piscina. Portanto, a Escola de Artes Visuais revisita, assim como seus ex-alunos, sua pedagogia e possibilidades de criação de forma educativa, inserindo o público ativamente.

 

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé.

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