Crítica semanal Lucas Rodrigues

he yacido días animales¹

numa escola de cinema que leva o nome de um antropólogo, no centro de uma das cidades mais desiguais do mundo, eu assisti lobo. carolina bianchi y cara de cavalo (o coletivo de performers que a acompanha) andam na beira do abismo: o risco. o suor dos corpos que se chocam, o tintilar das garrafas que se batem, o respirar intenso da plateia. a repetição das músicas.

as pausas.

a atenção de uma plateia que se divide em mais de vinte corpos correndo pelo espaço e em cada pausa descobre um corpo a mais. corpos entregues ao jogo da cena que os leva a exaustão, tornando-os limítrofes, fazendo-os alcançar um repouso prazeroso, em uma erótica pulsão de morte. corpos cansados e entrelaçados, exalando suor, caos e prazer.

artemisia gentileschi nos guia – evoé! –  para que os performers possam morrer na metade de um poema de emily dickinson. todos eles; morrer pela beleza, entre risadinhas de uma plateia lotada. o abraço de carolina bianchi no que permanece de pé me emociona porque, realmente, não é fácil recitar poemas, ainda mais na ponta de uma arma. poemas que fazem morrer são os melhores, há algo de verdadeiro nessa máxima.

he yacido días animales (dentro)
lobo, carolina bianchi y cara de cavalo

há em mim uma vontade de falar sobre tudo que a ilusão de minhas memórias criam, porque há em mim uma vontade de não esquecer nada, mas esquecemos, felizmente, porque o maravilhoso da vida é esse eterno e cíclico retorno de lembrar/esquecer.

a segunda língua mais próxima do latim preenche todo o lugar e narra sobre a força e a fraqueza de uma mulher que permanece sempre em vigília, que cava o chão com suas unhas quando se sente fraca; um intermezzo com uma raposa que do espelho de sua bacia quebrada se forma o mapa da américa do sul; o eco do grito de vinte e quatro homens em cena, da feliz anarquia que eles aparentam por estarem ali, confrontando o abismo, o mar de corpos; o mar de sensações, de cheiros, o abafado do local, o desconforto do meu corpo sentado no chão, mas atento a todas as imagens que se construíam e se destruíam diante dos olhos meus; o amor não é belo.

um santuário de não compreensão instaura-se com “lobo”, lehmann, citando schlegel, afirma que ficaria amedrontado se o mundo se tornasse completamente compreensível. não tenho nem como discordar. as imagens de lobo sopram um mar de referências na minha cara e minha racionalidade de predominância de terra no mapa querem ser capazes de entender tudo, de relacionar tudo, de esmigalhar até fazer sentido. contudo meu yin prevalece e meu olhar se desloca para; os detalhes e lá se perde, deixando-se embriagar pelo que no todo, selecionei para assistir: uma raposa empalhada no meio do palco, narrando o espanto de um fazendeiro que descobriu uma baleia de 12 metros em sua fazenda em utah, há centenas de quilômetros de seu habitat natural.

como profere carolina bianchi: os lobos irão invadir nossas casas, beber nossos uísques importados, mijar em tudo quanto é lugar e permanecerão aqui até que o reste somente o musgo. eu comprei a profecia, acreditei. acreditei também na capacidade que o amor tem de fazer sangrar. o amor sangra porque se não sangrasse ele não seria humano, não seria tão nosso. lobo me trouxe uma pulsão de vida que estava adormecida num canto qualquer do meu corpo e que agora tive acesso. vivi pela morte de vocês, e falo agora diretamente para vocês que estiveram em cena – mas também morro porque a cobra sempre encontra o caminho do próprio rabo.

deixo aqui um epitáfio; agradeço.

¹ “he yacido días animales” em tradução “eu jazi dias animais” é um verso do poema “madrugada” de alejandra pizarnik

Lucas.png

 

Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos.

 

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