Crítica semanal Pietro De Biase

A SOLIDÃO DO PROFETA

                     Em uma das mais abracadabrescas histórias da literatura moderna, Eco nos relata as desventuras de Roberto della Griva.  Este aristocrata italiano do século 17, naufragara no Pacífico sul, quando buscava o ponto em que começaria o dia anterior, a oeste do antimeridiano de Greenwhich. O naufragado logo encontra refúgio em uma outra embarcação. Anos antes, a tripulação do Daphne teria tido a mesma missão de Griva, mas também sem muito sucesso. O encontro do nobre com o navio fantasma, repleto de tesouros do passado, dá início as mais diversas deambulações filosóficas e uma redescoberta do barroco. Tal resgate proporcionado pela Ilha do dia anterior pode ser interpretado como uma aproximação metafórica a uma linguagem, a qual se acreditava estar distante, mas que, na verdade, está apenas a um dia de viagem, ou melhor, a um meridiano. Assim está ancorado o barroco na arte brasileira.

                Na arte contemporânea, a discussão plástica associada ao barroco não se dissocia do questionamento sobre a herança colonial. O barroco, enquanto estilo artístico, predominou durante a dominação portuguesa no Brasil, constituindo-se  como chave necessária à leitura da cultura nacional. Na série intitulada Jardim Oculto, atualmente em exposição na Galeria Silvia Cintra, Pedro Motta, tal como o expedicionário do dia anterior, recupera imagens do barroco de seu estado natal.  As fotografias denotam o interesse do artista para a construção de um jardim imaginário de esculturas, no interior de uma caverna.

                Deslocadas para os salões calcários do Monumento Natural Estadual Peter Lund ­– Gruta de Maquiné, em Minas Gerais, estão as esculturas dos profetas realizadas por Aleijadinho em pedra-sabão no início do século 18 para o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas, também em Minas. De silhuetas goticizantes, os 12 profetas do mestre Aleijadinho são apontadas como a última grande manifestação do barroco mineiro.  O interesse pela construção da paisagem, a partir da inserção de elementos estranhos, é uma característica da obra de Motta, já presente nas séries Sumidouro (2016) e Naufrágio Calado (2016-2019), que também discutiam uma situação de ocaso, de falência generalizada.

                Diferente das séries anteriores que retratavam a paisagem externa, em Jardim Oculto, Pedro se volta para o espaço confinado da gruta. Nele, retira a cor das imagens, potencializando os contornos escultóricos produzidos tanto pela mão do Homem como pela ação da natureza nas paredes da caverna. Há algo de eclesiástico na atmosfera silenciosa da caverna povoada pelas imagens barrocas. Essa aproximação resulta em uma composição quase caravagista, mas sem grandes adornos.

                O que pode um profeta aprisionado em uma caverna vazia? Por que aquele que anuncia a boa nova, a palavra do divino, encontra-se degredado ao silêncio? Que lugar ocupa o transcendente na era da automação?

                O apetite pelo exagero e pela teatralidade se esvai à medida que o barroco se depaupera. A crise do barroquismo simboliza também a ruína das paixões. Não necessariamente de uma paixão libidinosa, mas de um eros existencial, já descrito por Freud como impulso vital. A solidão dos profetas de Maquiné é de todos nós. O estado de confinamento falimentar que se acumula nos salões desabitados da gruta nos leva a questionar o que de fato estaria oculto naquele Jardim construído. Ao contrário do expedicionário de Eco que zarpou rumo ao dia anterior, a obra de Pedro Motta nos propõe esquadrinhar a direção do porvir.

 

 

 

pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

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