Crítica Daniela Avellar

DIVINO AMOR

Em Divino Amor (2019), o filme mais recente do diretor Gabriel Mascaro, tudo é absurdo mas nada é inventado. Trata-se de uma espécie de realidade exacerbada ou uma distopia banhada por luzes neon que ofuscam – ao mesmo tempo tão herméticas e deveras inebriantes.

A personagem principal, Joana, trabalha em um cartório com processos de divórcio. Ela tem o costume de tentar convencer os casais com desejo de separar a experimentarem uma reaproximação. E o faz a medida em que convida esses homens e mulheres a também participarem da espécie de seita/culto que ela e o marido frequentam regularmente e fazem parte. Este grupo é de orientação evangélica, embora suas práticas, na ficção, não se assemelhem ao que vemos na vida “real”: dinâmicas corporais entre os casais que compõem os encontros, incluindo relações sexuais com troca de parceiros no mesmo recinto, o famigerado suingue.

As cenas de orgia institucionalizada e gospel oscilam com passagens em uma espécie de rave evangélica – um amontoado de pessoas dançando, as luzes (neon, claro) e uma música eletrônica pulsante com letras que remetem ao universo cristão. Também muito frequentemente há cenas do que mais diverte no filme, uma espécie de drive-tru de oração, onde Joana entra com o carro, encontra sempre o mesmo pastor que a ajuda momentaneamente, colocando uma música que inspire fé, essa fé quase express e asséptica.

A vivência pessoal de Joana então confunde-se com sua vida burocrática, de labor. Seu ambiente de trabalho é também de estética estéril. Máquinas e vigilância; no futuro de Divino Amor não há um estabelecimento em que uma mulher não entre sem que seja detectada sua condição de grávida ou não grávida, isso porque existem sensores que registram o código genético de todos os cidadãos. A personagem acaba por ser deslocada de função dentro do cartório, quando inferem que ela anda se intrometendo na vida dos casais que entram com o pedido de divórcio. E questiona se foi punida por deixar a burocracia mais humana.

Mas o ponto mais agudo de seu momento de vida, certamente, é o fato de Joana e o marido quererem ter um filho biológico a todo custo e não conseguirem. Quando finalmente a personagem constata uma gravidez, a facilidade com que consegue realizar os testes genéticos para paternidade (nos computadores do cartório), logo atesta o inexplicável: o bebê não seria filho nem do marido de Joana e nem dos outros homens com quem esteve durante os cultos. Ela logo conclui que só pode estar grávida de um Messias, fato que não encontra aliança na figura do pastor da oração drive-tru e segue sem confirmação ao longo do filme.

E ainda assim, mesmo com as práticas evangélicas sendo retratadas no filme comportando desvios de rota, as energias parecem contidas. Embora de forma menos regrada e mais curiosa, há alguma força que de certo modo regula as coisas em seus lugares. A sensação de contenção persegue toda a narrativa. Mesmo na rave, é tudo controlado, modulado. Será o caminho do próprio capitalismo?

De trilha sonora (e tratamento sonoro em geral) muito acertada, direção de arte impecável e criação de atmosferas interessantes e inusitadas que fazem pensar, Divino Amor é uma boa prova de que o cinema brasileiro está vivo em sua verve crítica e interesse estético-político.

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

 

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