Crítica semanal Mariane Germano

Museu Histórico de Bacurau

Bacurau, produção cinematográfica escrita e dirigida por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ilustra em sua narrativa as relações estabelecidas entre uma sociedade distópica e as questões de armamento e violência em um futuro não tão longínquo, através da mistura de alguns gêneros clássicos – faroeste, thriller e ficção científica. A cidade, nomeada por um “pássaro brabo que só aparece à noite”, está sob ataques misteriosos de um inimigo que nos é revelado aos poucos – um grupo de norte-americanos que se divertem em um de jogo no qual mortes somam pontos.

É gradualmente estabelecida uma relação de nós versus eles na qual há paralelos sutis mas importantes para a construção do afeto pelos moradores de Bacurau. A montagem favorece cenas de violência altamente expositivas promovidas pelos americanos, enquanto o outro (nosso) lado, confuso quanto aos ataques, adota uma postura de defesa sob a qual as mortes só acontecem quando necessário. Postura essa que é refletida em cortes de cena estratégicos, que propositalmente não ilustram de forma tão intensa a estética do horror gore.

O espírito da avó, que morre no início do filme, salva de um suicídio o personagem Michael, interpretado por Udo Kier, tornando difícil não perceber thrillers que espirram sangue por puro prazer como irresponsáveis, principalmente no contexto político de debates intensos sobre armas e inimigos. A ridicularização a violência é evidenciada como jogo, esporte e lazer, ilustrando um comportamento espelhado principalmente em narrativas norte-americanas.

Um desses tantos pontos duais belamente edificados pela narrativa é a escolha de nossos oponentes ao “armamento vintage”, que dialoga diretamente com o contra-ataque que usa armas que estão expostas no Museu Histórico de Bacurau, que, como todos os museus, é lugar de conservação, preservação e perpetuação da identidade local e de suas histórias. Assim, de forma alegórica, é ilustrada a perpetuação de velhos hábitos no mundo contemporâneo. No momento de reviravolta mais importante do filme, o museu se torna local central para a reação, criando a metáfora perfeita para o momento em que vivemos, no qual tantas discussões importantes sobre censura e convocação para atos políticos são proporcionados por estes espaços – espaços de resistência. Em um momento após o conflito, é tomada uma decisão por limpar o sangue do chão, mas as paredes ficarão exatamente como estão. O sangue pinta as paredes da história.

Desta forma, Bacurau dialoga de forma simbólica com a violência de estado em uma cultura de banalização da mesma que permanece no mundo contemporâneo digital, ao mesmo tempo em que promove uma valorização da cultura nacional e seus personagens, ecoando momentos que vão desde a colonização portuguesa até a guerra de Canudos. Como consequência, a reação do público se vale de manifestações fruitivas importantes, como a criação de memes inspirados em seus personagens, revertendo o hábito virtual para uma produção brasileira e celebrando um termo específico para o gênero – nordestern.

A imagem da capa é um cartaz feito pela artista Clara Moreira, que realiza cartazes de cinema como obras de arte, trabalho exposto em Vislumbres de Uma História do Cinema, no Café Palácio das Artes, em Belo Horizonte, até 30/09.

 

 

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé.

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