Crítica semanal Lucas Rodrigues

morte em festejo

na semana passada estive na nona edição do spa, semana de pesquisas em andamento, do departamento de artes cênicas da usp, em são paulo. na quinta-feira sentei eu numa cadeira para assistir a uma palestra da professora doutora da área de literatura brasileira e ação dramaturgia, suzi sperber, uma verdadeira monstruosidade de conhecimento e experiência.

não assisti a uma palestra, assisti a um espetáculo.

suzi apresentou seu trabalho como atriz “fantasia ou a cifra da ação possível: processo colaborativo sobre morte, resiliência, inovação e festa”,onde suas memórias fazem-se ponto de partida para uma festa. “festa para sair da letargia”, como a mesma fala em cena. festa-espetáculo que nascera no aniversário de oitenta anos da mesma, advindo de uma caixa abandonada, da festa do marido de suzi que no ano anterior, não fora realizada.

em certa passagem a atriz-professora (cunho esse termo pela fala do diretor do espetáculo, juliano jacopini, que fora orientando no doutorado por suzi e a dirigiu nesse trabalho) narra diversas passagens de sua vida onde colocara-se de frente com a morte e a pergunta que ressoa em repetição é a seguinte: “por que não morri?

morte em festejo (dentro)
champanhe e bolo da festa promovida por suzi sperber, foto do autor

o trabalho de suzi sperber com direção de juliano jacopini resvala em questões de pulsão de ficção tempo e morte para criar dentro de salas de aulas e de palestras um trabalho que ressignifique a noção de hora-aula. entre memória, ficção e literatura brasileira suzi nos brinda com seu corpo pulsante de mulher de oitenta anos que vive a vida e arrisca-se em novos desafios e experiências. nas falas da própria atriz a mesma afirma que tinha feito somente teatro amador a uns passados quarenta anos e que agora, com “fantasia ou a cifra da ação possível” trilha um caminho novo; que a faz pulsar.

a simplicidade de “fantasia ou a cifra da ação possível” é o que torna o espetáculo tão marcante e grandioso. com uma bolsa pendurada no braço, alguns objetos trazidos pela atriz, outros reapropriados do meio escolar, nasce a festa que o espetáculo promete – a morte como encanto, a encarnação da atriz-professora em diversos outros da literatura brasileira, a repetição como pulsão, a narração da própria vida e principalmente a vontade de “começar a viver e não me prometer a vida”, como profecia a atriz.

servido de champanhe e bolo de uma festa que nem ao menos esperava participar, pedi humildemente para dar um abraço na potência artística que é suzi sperber, somente para agradecer por ser convidado a morrer – e renascer, sempre! – com ela aquele dia. e assim morri, fazendo da morte o encanto necessário para renascer um pouco menos apático em relação aos tempos que assolam os corpos artísticos.

festejo como micropolítica essencial.

 

Lucas.png

Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos.

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