Crítica semanal Vanessa Tangerini

Trilogia latino-americana – Parte 2: O dilema centro-periferia

Na dicotomia centro-periferia, a América latina sempre foi a periferia, o outro, o intruso. Pensada desta forma, a sua produção artística termina em um lugar que talvez não seja conveniente para a construção de subjetividades alternativas aos estereótipos do imperialismo cultural. Enquadrada como uma periferia, a arte latino-americana termina muitas vezes ocupando o lugar da “postal exótica” nas vitrines dos museus ocidentais.

Outro problema é que, além de assinar subjetividades em função da sua própria e limitada concepção do mundo, o mercado capitalista ocidental também é capaz de devorar qualquer expressão alternativa, dissidente ou até violenta e convertê-la em mercancia. Dessa forma a boina do Che Guevara, por exemplo, se torna um artigo de mercado que pode ser comprado até em lojas de Miami. As favelas se transformam em sets de gravação para videoclipes de artistas internacionais.

Quando a América Latina aceita o papel da outra cara subdesenvolvida e colorida do capitalismo, curada da sua agressividade primária e das suas condutas selvagens irracionais (impróprias da ilustração européia), esta se torna inocente, amistosa e de fácil consumo.

É assim como a violência discursiva da obra de Frida Kahlo termina reduzida a um elogio colorido da fauna subtropical. “Viva la vida” (1954), por exemplo, utiliza a natureza morta como gênero para evidenciar o fim irremediável do nosso ciclo vital. É um elogio à morte. Suas cores intensas e primárias são também contundentes e viscerais. O corpo vermelho da fruta é devorado como um coração com sangue. Convertido em um imã de geladeira, “Viva la vida” é só um objeto decorativo.

Crítica Sábado 07-09 Imagem 1

Uma artista misteriosa, contraditória e complexa é convertida em um símbolo pop que ilustra artigos cosméticos e de decoração. Desvinculada do seu conteúdo, a obra da artista está pronta para o consumo de massa e seu rosto se transforma em um produto em si mesmo. Passa a figurar como símbolo de uma rebeldia inofensiva e vazia, sem ofender nem incomodar.

Crítica Sábado 07-09 Imagem 2

 O problema não é o consumo em sim. Temos que assumir, como seres da contemporaneidade, que o exercício do consumo é muito intrínseco à nossa condição como agentes sociais e forma parte da nossa rotina de comunicação. O problema é mais cartográfico.

Qual é o lugar da nossa região no mapa cultural? Seguiremos ocupando o lugar do outro, da periferia? Quais podem ser as estratégias da arte latino-americana para construir diferenças que possam separar-la da configuração que as galerias e os grandes museus (condicionados pela lógica de consumo ocidental) lhe têm preparado?

Imagem de fundo: Mi nacimiento, 1932. Frida Kahlo.

 

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

 

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