Crítica semanal Pietro De Biase

ATLANTES DA FLORESTA

Ainda que no estado atual das coisas se argumente contra fatos científicos, há consenso de que o planeta enfrenta uma crise ambiental. As preocupações acerca dessa crise sem precedentes despertam o interesse plástico. A arte ecológica, segundo o glossário da Tate, é aquela que discute questões sociais e políticas referentes ao meio ambiente natural e urbano. Ela tem suas raízes na Land Art, corrente artística surgida no final da década de 1960, que se utilizava do meio ambiente e dos recursos naturais para realizar suas obras. No Brasil, não foram, e não são poucos, os artistas cujas pesquisas discutem a ecologia. A emergência do tema tem inspirado recortes curatoriais que dialogam direta e indiretamente com questões ecológicas.

A atual exposição no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE) em São Paulo, intitulada Ambiental: arte e movimento dá um passo adiante na reflexão sobre a relação do Homem com o meio ambiente. Em primeiro lugar, cabe destacar que a curadoria da coletiva, de forma bastante pioneira, trouxe a ambientalista Marcia Hirota da ONG SOS Mata Atlântica para pensar as aproximações entre arte ecológica e ativismo ambiental.

A coletiva propõe um diálogo sinérgico entre produção artística contemporânea e o trabalho de ONGs que militam na área ambiental. A mostra pretende reforçar o papel do MuBE como espaço de debate sobre o meio ambiente. Somos recebidos pela marina sobre concha de Pancetti que logo nos revolve aos vídeos publicitários das campanhas empreendidas por ONGs como Greenpeace, Instituto Socioambiental (ISA), Fundação Pró-Tamar, WWF-Brasil, dentre outras.

A introdução teórica permitia pela apreensão ao trabalho das ONGs equipa o olhar da urgência da equação ambiental. A floresta queima. A biodiversidade se esvai. O gelo derrete. O planeta aquece. São problemas prementes cujo desenlace depende da coletivização da luta. A arte, atenta às urgências e as agruras humanas, busca expandir as perspectivas narrativas friccionando a relação entre Homem e Natureza. Para tanto, a coletiva conta com obras de Arthur Lescher, Brígida Baltar, Cláudia Jaguaribe, Dudi Maia Rosa, Luiz Zerbini, Shirley Paes Leme, dentre outros.

A exaltação do ativismo na exposição não escamoteia o apreço ao estético, cujos atravessamentos conceituais se organizam em dois eixos: meio ambiente natural e meio ambiente urbano. Nesse aspecto, as obras parecem filtrar questões do mundo contemporâneo sem retirar a sua densidade. De forma geral, a mostra é exitosa, muito embora algumas ausências sejam sentidas, como Mabe Bethônico, Jorge Menna Barreto e Lia Chaia.

Em um dos núcleos da mostra, uma escultura de madeira calcinada de Frans Krajcberg disposta em proximidade à carcaça esculpida de um centenário pequizeiro de Hugo França alude a uma poética destruição incendiária. Na superfície do tronco do velho pequi, no entanto, de forma absolutamente não planejada, já é possível observar o rompimento de pequenos brotos.

imagem_mube

O mesmo Krajcberg que em 1978 contribuiu com Pierre Restany e Sepp Baendereck na elaboração do Manifesto do Rio Negro do Naturalismo Integral, que contrapunha a tradição do realismo nas artes plásticas e a exaltação da Amazônia como potência da “natureza original”, capaz de empreender “uma higiene de percepção e um oxigênio mental: um naturalismo integral, gigantesco, catalisador e acelerador das nossas faculdades de sentir, pensar e agir”[1].

O naturalismo integral propunha um agir estético em relação ao novo realismo,  movimento teorizado por Restany e Yves Klein no início dos anos 1960, que, ao contrário da pop-art, não está interessado nem em exaltar a sociedade de consumo nem em representá-la, mas apresentá-la de maneira direta, transferindo o acúmulo dos próprios objetos por ela produzidos e descartados para o registro da arte.

O espírito do Manifesto ecoa pelo salão monolítico do MuBE. As aproximações entre arte e ativismo ambiental se estreitam na exposição, no momento que tanto a militância como a arte se propõem a redesenhar futuros possíveis. É a estética ao auxílio da resistência. O broto no tronco do pequi.

O relato xamânico sobre a queda do céu é um alerta para a destruição da natureza pelos “povos da mercadoria”. O medo da queda do céu não é exclusivo aos povos da floresta. A teogonia grega descreve a figura de Atlas, o bravo titã condenado a suportar o peso dos céus pela eternidade. A sintonia fina entre o poético e o militante presente na curadoria da mostra, revigora o olhar sensível, que não tarda a ser também convocado pelo Atlas na tarefa de reerguer o céu.

 

[1] https://nossofuturoroubado.com.br/o-manifesto-do-artista-brasileiro-frans-krajcberg/

 

 

pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

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