Crítica semanal Daniela Avellar

PARTITURAS ACONTECIMENTO

As chamadas event scores, que aqui opto por traduzir como partituras-acontecimento, são trabalhos criados pelo artista George Brecht (1926-2008), associado ao movimento Fluxus, na década de 60. Estas consistem em conjuntos de instruções verbais destinadas à livre interpretação do leitor. Sua leitura envolve quase um ato escultórico, a medida em que o uso da linguagem privilegia a recepção e a partitura depende do leitor-observador-performer para a construção de seu sentido. Com suas partituras Brecht buscava uma espécie de redução, gerar a menor unidade de uma situação, uma espécie de traço essencial, que quando isolado e transformado em notação pode proporcionar ao seu ativador uma profusão de sentidos.

word event

Se por um lado a event score se move nas zonas do mínimo e pode operar como um recurso minimalista, por outro, a busca de Brecht era por proporcionar experiências plurisensoriais. O artista tinha interesse por essa expansão, talvez devido aos seus interesses filosóficos e esotéricos. Por isso não bastava ficar no registro da partitura musical, ainda que textual. Era preciso conceber a notação de outra maneira. Sair da música, ir para as artes visuais e se conectar à ciência e à filosofia. E nessa expansão a linguagem assume uma forma mais próxima do código, como uma programação, uma instrução, mais do que algo no campo da expressão ou da construção de narrativa.

As experimentações de John Cage são precursoras das ideias de Brecht, o músico era professor do artista na New School For Social Research em 1957. Mas talvez seja importante citar que George Brecht considerava que seu mentor ainda teria ficado muito restrito ao domínio da composição musical. As partituras textuais de Cage são tentativas de organizar, rearranjar ou combinar sonoridades, as vezes realizam a gestão de acontecimentos simultâneos. Já as event scores são gestos que visam isolar da experiência, através da notação, um acontecimento singular e mundano. Interessava ao artista os hábitos que estão dispersos no cotidiano, sejam os mais simples, o ato de acender e apagar a luz por exemplo, como em Three Lamp Events (1961). O gesto linguístico nas event scores realiza uma operação precisa de corte em direção à acontecimentos aparentemente insignificantes e com isso abre um infinito universo de possibilidades. Liz Kotz, crítica de arte, usa o termo “moldura linguística readymade” (linguistically framed readymade) para comentá-las, indicando que o ato de colocar coisas em evidência através de linguagem expande o potencial performativo do readymade, que não se limita só à objetos físicos.

three lamp events

Certamente as event scores influenciam a arte contemporânea, por suas relações com a linguagem e com a escrita, pelo o que atritam em relação às sonoridades, por sua condição em relação ao meio e por seus desdobramentos a partir das operações de acaso iniciadas pelos surrealistas, dadaístas e as experimentações com indeterminação e partituras textuais de John Cage. O leitor, ou o performer, aquele que recebe a partitura pode interpreta-la da maneira que quiser. O que isso contribui para as reflexões em torno da autoria? E da relação entre intérprete e compositor?

direction

Para George Maciunas, figura agregadora do Fluxus, os eventos suscitados por Brecht são non-art a partir do momento em que o artista não cria propriamente nada, são coisas que existem a todo momento. Para ele era como se Brecht estivesse realizando um gesto de dar atenção à coisas que normalmente passam despercebidas. Maciunas não se importava se os trabalhos de Brecht ficavam dispersos nos festivais do grupo, ele achava interessante, a medida em que as event scores seriam acontecimentos imperceptíveis que beiravam um “quase-nada”. Mas como pensar esse “nada” que é tão cheio de “tanto”? Será interessante a operação de deslocar a forma partitura do domínio das artes visuais? E se ela for um procedimento interessante para quebrar com o regime duro do significante? E se for ela uma via possível para pensar sobre diferença e desconstrução pela via do código? Fala-se muito sobre desmaterialização do objeto de arte e saída do domínio da visualidade, as event scores apresentam uma materialidade outra através da linguagem, um conjunto múltiplo, circulável e permanente enigmático. A pergunta não se exaure: o que afinal são esses textos? Como lê-los?

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: