Crítica semanal Pietro De Biase

A CATEDRAL POLICROMADA

A matéria prima da arte é a dor. Do berço da tragédia, embriagado de humanidade o agir estético se cria. Considerável parcela da produção artística contemporânea que questiona o discurso contra hegemônico se norteia pela dor. Não de qualquer uma, mas de uma dor silenciada. Que habita os espaços vazios da História. Uma dor errante que transita pelo amanhecer poético. A arte transfigura o ser existente, mas só́ a tragédia exprime a crença na eternidade da vida. A tela Arraia pintada pelo francês Jean-Baptiste Siméon Chardin em 1725 pode ser considerada o preâmbulo dessa via dolorosa.

A obra foi exibida no Salão da Juventude de Paris em 1728, onde foi recepcionada com ovação. Logo integrou a coleção do que se tornaria o Museu do Louvre, após a Revolução Francesa. O início do século 18 marcou uma crise das artes europeias. O pensamento iluminista de verve eminentemente burguesa dava sinais de colisão com a produção artística vigente. A academia francesa desse período se orientava pela reprodução das alegorias drapeadas e triunfantes dos mestres italianos. Herdeiros do barroco meridional, artistas franceses como Watteau, Boucher e Fragonard traduziam os idílios pictóricos do sul mediterrâneo para o rococó aristocrático de Versailles. Tudo menos a dor. Tudo menos a verdade.

A arraia de Chardin com sua temática associada ao gênero da natureza morta pode simplesmente passar inadvertida ao olhar incauto. Ao vagabundear pelas labirínticas galerias do Louvre, hoje repletas obras, uma arraia eviscerada dificilmente capturaria a atenção. A História, no entanto, conta uma outra versão. O enciclopedista Diderot, certa vez, declarou que a arraia, mesmo com seus contornos abjetos, mostrava a verdadeira carne do peixe, sua pele e seu sangue. Como se sua organicidade desejasse transbordar da tela.

Proust foi mais longe ao declarar que a arraia aberta “nos permite admirar a beleza de sua arquitetura delicada e vasta, tingida de sangue vermelho, nervos azuis e músculos brancos, como a nave de uma catedral policromada”. Suas entranhas lançadas sobre a mesa de ostras, o pescado já apodrecido e o olhar arrepiante do gato só contribuem para a atmosfera meditativa emanada pelo quadro. Será que a arraia não se dera conta de que fora pescada? Seu olhar humano a aproxima de um Cristo crucificado. Pai, por que me abandonastes? A dor é imensa. A verdade, também.

Inúmeros outros artistas retornaram à arraia de Chardin. Boudin, Matisse, Soutine. Todos seduzidos pela repulsa. Abismados pela dor da arraia, realizaram releituras da obra seminal, numa tentativa de imortalizar o sofrimento descrito por Chardin. Em uma época em que temática da pintura se restringia à aristocracia, o padecimento da arraia se tornou político e universal. A fragilidade visceral da tela é hipnótica. Talvez se esteja mesmo diante de uma catedral policromada, alicerçada na dor da finitude existencial.

Em um dos mais sensíveis depoimentos colhidos por Svetlana Aleksiévitch para o Fim do Homem Soviético, uma entrevistada declarou: “Fico andando em círculos ao redor da dor. Não consigo me afastar. Na dor, existe tudo: tanto sombras como solenidade; às vezes, creio que a dor é uma ponte entre as pessoas, um elo oculto; mas outras vezes penso desesperada que aquilo não passa de um abismo”. Ao mirar a arraia enternecida de Chardin, distinguimos, talvez ingenuamente, a ponte que une o abismo à catedral.

 

pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

 

 

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