Crítica semanal Daniela Avellar

UM HORIZONTE VERTIGINOSO A FITAR

Levantes é uma exposição organizada por Didi-Huberman. A mostra é composta de imagens sobre atos de revolta e teve passagem relevante em alguns museus. Infelizmente não tive a oportunidade de vê-la ao vivo, mas já tive contato com o catálogo da mesma. Recupero aqui uma passagem de sua introdução, na qual Didi comenta sobre os tempos sombrios em que vivemos hoje não tratarem-se exatamente de um momento no qual ocorre a aparição de uma mal súbito que deve ser combatido a todo custo. Ele fala sobre esses tempos operarem de forma a ofuscar o nosso olhar e aparecerem como fronteiras para nossos corpos e pensamentos. Como seria possível então, neste tempo que se impõe, olhar, sentir, ouvir e falar?

O filme Democracia em vertigem é a produção mais recente da diretora Petra Costa que quando lançado gerou divergência de opiniões dentro do próprio campo progressista. O longa busca abordar as narrativas políticas pelas quais o Brasil passou nos últimos seis anos até desembocar na eleição de Bolsonaro. As escolhas da diretora, feito o conjunto de obras na forma em que foram organizadas por Didi-Huberman, trazem imagens que provocam visibilidade e fascínio. Em que medida os levantes expostos no museu e a narrativa na perspectiva escolhida em Democracia em vertigem se articulam com a intensidade dos acontecimentos em questão?

Aqui prefiro me centrar na crítica ao filme de Petra Costa. Trago Didi-Huberman com Levantes porque me interessa pensar sobre a distinção feita pelo autor entre tomada de posição e tomar partido. O filme em questão me parece tomar partido, isto é, realiza um recorte preciso e delimitado, abrindo uma geografia feita de linhas duras e retas. Quando uma imagem toma uma posição, esse gesto se inscreve muito mais em um contexto que envolve a criação de um diagrama aberto e dialético, capaz de sustentar multiplicidades. A tomada de posição pressupõe ambiguidade e conflito, fatores que passam longe da narrativa que encontro na suposta vertigem proposta por Petra.

A política me parece inscrita em uma dinâmica permanente de deliberação e ação. Palavras são difundidas para uma multiplicidade de vozes; há um jogo contínuo no qual de um lado existe uma soberania que irrompe e interrompe e do outro, a liberdade que permite a expansão de subjetividades. Os acontecimentos políticos como retratados no filme aqui discutido estão, ironicamente, na contramão de uma vertigem. Imagens que se bastam em fatos estanques e perspectivas homogeneizantes apontam uma incongruência para a prerrogativa da própria existência da democracia (também presente no título). Isto é, o fato de que a vida democrática só é possível em permanente vulnerabilidade e diversidade, em movimento.

Petra Costa, na minha opinião, faz escamotear uma força importante quando retrata 2013 em breves minutos, como se o ocorrido pura e simplesmente teria aberto espaço para o processo de Impeachment (ou golpe), sem citar a assinatura da lei antiterrorismo por Dilma, entre outras nuances. É nessas imagens que ao meu ver a vertigem poderia aparecer como condição de aparição do levante. As agitações de junho de 2013 deflagram o fato de que a democracia para além do Estado, para ser viva, deve se multiplicar a todo custo.

Acredito que junho de 2013 abre rastros indeléveis. E perscrutá-los deveria ser o desafio diante do exercício de gerar imagens para tais acontecimentos. O levante em questão chacoalhou muitas lugares comuns da velha esquerda em um clima vertiginoso difícil, mas necessário. As jornadas de 2013 abrem um caminho para que a democracia e a esquerda possam se reconstruir como campo de ação, a perspectiva das lutas só é possível quando sustentamos os antagonismos e a coexistência de multiplicidades inerentes à democracia, e isso não me parece possível quando a aposta estética é feita em imagens tendenciosas, ávidas para tomar partido. Elas acabam dobrando-se em si mesmas em uma infinita viagem de retorno cuja crença parece mirar em um passado dourado que nem sequer sabemos se um dia existiu. É preferível olharmos para frente em busca de algo ainda por vir, na aposta de um novo mundo de imagens a fitar, ainda que ambíguo e mesmo que falho.

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

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