Crítica semanal Vanessa Tangerini

Trilogia latino-americana – Parte 3: A ferida barroca

O barroco na América Latina é, em primeiro lugar, imposição e colonização. Essa arte foi utilizada em nosso continente como instrumento de persuasão e educação (pensada em términos católicos de conversão e doutrinação). Porém, a transposição das formas artísticas européias aos territórios colonizados foi “contaminada” devido a diversos fatores como, por exemplo, as condições do meio, os materiais existentes e a sobreposição de culturas.

A cidade de Potosí (atual Bolívia) foi um dos centros mais importantes da vida colonial americana devido à extração-saqueio de minerais no cerro que carrega o adjetivo “rico” junto ao nome da cidade: o cerro rico de Potosí. Extração que, realizada com mão de obra escrava indígena, levou a riqueza a outros países. Hoje Potosí é uma cidade-nostalgia em um dos países mais pobres da América Latina. “A cidade que mais deu ao mundo e a que menos tem”. Ferida aberta do sistema colonial. [1]

Ali em Potosí se encontra a Igreja de San Lorenzo de Carangas. Ela chama a atenção pelo frontispício que a inscreve dentro de uma manifestação do barroco latino-americano definida por alguns autores como “estilo mestiço” e por outros como “barroco andino”. O interessante dessa fachada, além da técnica com que foi trabalhada que a assemelha a uma tapeçaria, são alguns elementos iconográficos que surgem em meio ao horror-vacui.

Crítica Sábado 21 de set Foto1

Em meio a símbolos católicos aparecem representados na parte superior da fachada o Sol, a Lua, as Estrelas e, de forma repetida, a flor de inca (típica da região). Segundo a cosmovisão Inca, estes elementos eram sagrados e alguns eram considerados deidades: Inti era o deus-Sol e Mama Quilla a deusa-Lua. De forma curiosa, suas colunas se transformam em figuras que ficariam conhecidas como “indiátides” (em relação às cariátides gregas): figuras indígenas impressas sobre formas européias.

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Dos lados, encontramos duas sereias tocando o charango (instrumento típico dos Andes). Alguns defendem sua relação com uma teoria de Platão onde o movimento das esferas celestes é atribuído à música de oito sereias. Porém, essa figura mítica já estava presente na região: segundo o mito, Tunupa (deus do vulcão e do raio) teria copulado com duas sereias do lago Titicaca. Ademais, ainda hoje existe na região a crença popular de que as sereias são capazes de afinar os instrumentos e transferir os seus dons. [2]

Crítica Sábado 21 de set Foto3

Esculpidos na igreja barroca estes elementos estão enquadrados sob um relato bíblico que busca encontrar paralelos entre a crença originária e a religião católica como estratégia para suprimir a primeira. Porém, ao mesmo tempo, essa colagem acaba tornando-se uma forma de sobrevivência dessa cosmovisão por debaixo do véu católico que buscava ocultar-la.

Sincretismo ou resistência?

Podemos falar em “maior liberdade de criação” (como defendem alguns autores) quando as formas são impostas e, ao mesmo tempo, aquelas que eram genuínas são destruídas?

Podemos chamar de genuínas as novas formas que surgem desse processo violento? Em qual código devemos ler essas obras? Quais relatos devem ser privilegiados na sua leitura?

O barroco batizado de latino-americano termina revelando-se mais complexo do que poderia parecer em um primeiro momento.

Longe de ficar no passado, o barroco, assim como a herança colonial, segue presente na contemporaneidade latino-americana e deixa seus rastros na prática contemporânea de artistas como o peruano Alfredo Márquez, ou o brasileiro Pedro Motta (presente na crítica de Pietro de Biase).

Crítica Sábado 21 de set Foto4
Caja negra”, 2001. Pintura acrílica e serigrafia sobre tela. Alfredo Márqueza 

 

Afinal, o barroco na nossa terra é como aquele que surge na obras de Adriana Varejão: uma ferida aberta, que ainda não sanou.

 

 

 

Imagem da capa: “Azulejaria de tapete em carne viva”, 1999. Adriana Varejão.

[1] Eduardo Galeano em “Las venas abiertas de América Latina

[2] http://sedici.unlp.edu.ar/bitstream/handle/10915/66588/Documento_completo.pdf-PDFA.pdf?sequence=1&isAllowed=y

 

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educa

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