Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Poesia estranha

A poesia visual ocupa um lugar estranho no panorama da produção artística e cultural. Tendo aparecido sob o signo das vanguardas, a sua leitura está marcada pelo erro histórico na formulação da morte do verso, e provocou, por outro lado, releituras do verso e sua tradição, revalorizando obras esquecidas ou alterando os modos de ler e fazer poesia em geral. Passou, então, a ser lida como um gênero entre outros, marcado pelo debate sobre poesia e tecnologia, e uma plataforma teórica, fonte de reflexões sobre a cultura. 

Ideias como as do “poema pós-utópico”, por Haroldo de Campos, e da “era pós-verso”, de Omar Khouri, procuram situar a contribuição da poesia concreta na cena plural do poema contemporâneo, assim como a teorização da modernidade por Antonio Cicero, que compreende a poesia experimental como fonte de renovação de linguagens de um gênero estabelecido após as pesquisas vanguardistas. 

Embora de maneira mais sugestiva do que evidente, a teoria de Giorgio Agamben para o verso também está relacionada com a tradição da poesia visual, pois considera que figuras tradicionais do poema como o enjambement, a cesura ou a rima são a regra, e não a exceção (e, por isso, licenças poéticas) da linguagem no poema; isso porque o verso consiste no desencontro entre uma sequência linear de signos verbais visuais e o conjunto das relações gramaticais entre as palavras do texto, que acontecem também entre os versos. 

Além disso, as trajetórias de alguns poetas visuais vêm sendo recebidas pelo campo das artes visuais, e os exemplos de Wlademir Dias-Pino, Lenora de Barros, Neide Sá ou Almandrade, cujas obras frequentam mais as galerias e os museus do que os livros de poesia e a crítica literária, revelam a complexidade dessa prática, que não deve ser entendida como um gênero entre outros, mas sim como um problema de gêneros e entre linguagens.

É com esse olhar contraditório que se pode ler Viajo com os olhos (Urutau, 2018), que reúne a produção em poesia visual de Élson Fróes. São 43 textos comentados pelo autor e produzidos entre 1984 e 2012, que manifestam principalmente a paixão pelos processos de semiose verbal e visual, variando poemas com ou sem palavras, coloridos ou em preto e branco, muitos em diálogo com a tradição textual da poesia desde a Antiguidade. 

26.3

É o caso de “O sexo do verso (2007)”, que associa à imagem do nó borromeano, em que três círculos estabelecem um nó simultâneo entre si, aos símbolos do feminino, do masculino e da lírica. Elaborado como logotipo para o site do tratado de versificação de Glauco Mattoso, o poema amarra as tradições dos gêneros, provocando um trocadilho intersemiótico entre palavra e imagem, entre identidades de gênero e gênero literário. O verso aparece como entidade andrógina e compósita de música e corpo, sendo aquilo mesmo que reúne os corpos separados, como no mito platônico do amor. Reúne, no entanto, como ideia, ou ainda, nesse caso, logotipo, símbolo icônico de uma marca, o que significa estarmos, no texto de Élson Fróes, no campo teórico do Amor, onde, como escreveu Camões, “o vivo e puro amor de que sou feito / como matéria simples busca a forma”. 

O poema viaja no tempo e nos sentidos, estendendo a leitura aparentemente mais veloz de um logotipo numa consideração do poema e de sua história. O título do livro, assim, produto de um trocadilho com uma frase redundante, “vejo com os olhos”, aponta para a “suspensão”, o “fluxo”, o “feixe de relações”, a “montagem”, termos com os quais Fróes procura definir o poema visual na abertura do livro. Por isso, poemas simples como “Inflamável (1991) v.3”, no qual um coração aparece como substância inflamável numa sinalização de alerta, convidam a uma viagem pela lírica amorosa durante a leitura, durante a qual peito, amor e fogo colidem com uma placa de perigo, sob a lição tragicômica de Oswald de Andrade: “Amor // Humor”. 

O livro de Élson Fróes mostra como a poesia visual pede hoje um leitor que ri com a tradição e ama o poema, ou o que resta dele, e é precisamente devido a essa solicitação que alguns leitores desconfiam desse trabalho. Como amar o poema semiótico diante dos memes com humor radical que circulam nas redes sociais, ou não seriam esses memes a poesia visual mais forte do nosso tempo? Como, então, amar o poema que convida a rir da tradição quando o momento histórico faz pior nas notícias do mundo, que avisam de uma guerra incessante contra a memória e a dignidade? Como, ainda, amar o poema lúdico e técnico na página ou na tela quando a rua e a cidade chamam para a convivência, os saraus, as oficinas, as aulas, detonando poemas reparadores da subjetividade de quem escreve? 

São perguntas que me vejo fazendo à poesia visual, que amo ler, enquanto a leio.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: