Crítica semanal Mariane Germano

O Amante Duplo, de François Ozon

A primeira cena de O Amante Duplo (2017), filme dirigido por François Ozon, mostra um útero sendo observado em uma consulta ginecológica, e logo em seguida, o olho da protagonista na vertical, imitando a forma anteriormente exibida. A duplicidade aparece simbolicamente durante o filme inteiro, com cenas e personagens construídos para funcionar como espelho de outros.

Chloé possui problemas relacionados a constantes dores na barriga, e procura tratamento psicológico para descobrir sua origem, já que médicos a aconselham que “o intestino é um segundo cérebro”. As sessões fazem com que os dores cessem por um tempo, quando uma possível descoberta de sua origem é revelada – a falta de amor ferecida pela mãe de Chloé.

As exposições que ocorrem no museu onde a protagonista trabalha como monitora de galeria, funcionam como refletores de suas emoções, através das cores e dos enquadramentos que a posicionam estrategicamente. As obras são canalizadoras das simbologias mais importantes das narrativas, muitas delas carregadas de vermelho, simulando sangue, e de elementos que parecem lembrar partes corporais.

Chloé inicia um relacionamento com seu terapeuta, e quando se mudam juntos para um apartamento, ela descobre uma caixa com seus pertences e encontra um documento em que seu sobrenome está diferente. Em um processo de investigação, ela descobre que seu namorado tem um irmão gêmeo, também terapeuta. Esse evento gera uma sucessão em cadeia de acontecimentos, neblinando a distinção entre fatos e paranoia, realidade e imaginação, dando início ao clímax do filme.

Ao início do relacionamento paralelo com o irmão, novas dicotomias são inseridas no filme. As mentiras e omissão de fatos psicológicos ou verdadeiros fazem com que a própria protagonista se duplique – uma verdade maior, desconhecida por Chloé, que é a causa dos seus problemas: a descoberta, em seu útero, de uma rara condição de gêmeo
parasita, sob a qual um feto absorve o feto do gêmeo durante a gestação.

A construção imagética do filme relaciona estes duplos de forma alegórica e fantasmagórica, em cenas poéticas como a que Chloé brinca com dois meninos, irmãos gêmeos, em um fundo branco. O surgimento do gêmeo “malvado” na narrativa é projeção de questões corporais – incorporadas no insconsciente – na realidade. Em meio a uma cena de ato sexual, há uma imagem de cordas vocais que se abrem e fecham.

Dessa forma, o filme pode funcionar como um manifesto que observa o corpo como canalizador da psique e das paixões humanas, desbancando uma filosofia iluminista de favorecimento à razão em detrimento do carnal. Na última cena, Chloé quebra um espelho, finalizando seu processo de cura.

 

 

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé.

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