Crítica semanal Pietro De Biase

ABISMO IMPERMANENTE

O tempo da natureza não é o mesmo tempo da arte. A organicidade do tempo natural, guiada pelo contínuo ciclo de processos essenciais, existe à contrapelo da sofreguidão em que parte da produção artística se apresenta. Por óbvio, a aceleração não é imanente à arte, mas ao sistema de produção e de consumo em que ela está inserida. A contaminação é, portanto, quase que inevitável. Thiago Rocha Pitta, artista mineiro, reflete sobre certos aspectos da passagem do tempo e a paisagem ao curso de sua produção artística. Sua concepção de paisagem coloca-se, preferencialmente, como modo de fabular um tempo outro.

A Fundação Abismo – Fundabismo, localizada na Serra dos Órgãos, é o mais recente projeto do artista. Concebida por Pitta como um desejo de ultrapassar as limitações do cubo branco, a Fundação se delineia como terreno fértil a um diálogo possível entre a arte e outros campos do conhecimento, como biologia, botânica, geologia, astronomia.

Um passeio pelas obras a Herança (2008); Juventude (2008); Cinema Fóssil (2009); e Abismo sobre Abismo (2018), dentro do espaço da Fundação, oferece deslocamentos e o estado de deriva como experiência artística. Em suas intervenções sobre a paisagem, Pitta propõe uma paisagem ficcional, que se torna mediata e imediata, ativa, passiva, literal e surreal.

herança
Herança, 2008

A trânsito de distintos campos do conhecimento e a fabulação da paisagem contribuem para elevar as obras a um estado de profunda meditação. Em um tempo em que impera a devoração, obras que solicitam uma desaceleração do sentir e um tempo alongado para fruição, expandem o olhar para percepção mais generosa do outro, e, consequentemente, do eu. Perscrutar o tempo, ato caro a Thiago, aguça a reflexão existencial sobre o diálogo com espaço natural.

O vagar poético na obra do artista mineiro captura o silêncio, que, por sua vez, se infiltra nas fraturas da percepção e fornece solo para repensar a temporalidade cotidiana. As articulações de Pitta engendram a experiência do transitório. Do impermanente. A Humanidade habita a impermanência.

silencio
Silêncio

A umidade provocada pela evapotranspiração da mata atlântica, por vezes, envolve a Fundação em uma densa bruma. Passageira. Estacionária. Adentrar a cerração, ou melhor, o ruço, como chamam os locais, é experienciar um parque de arquitetura humana, cujo descentramento revela uma sobreposição de questionamentos. A ação do tempo sobre as obras entrecruza natureza e arte. A materialização desse cruzamento evidencia um acúmulo de afinidades e relatos da imaginação. Na Fundabismo, se nota um contato mais isonômico entre natural e artificial.

abismo
Abismo

Explorar o sítio acidentado da Fundação é aceitar o abismo do tempo erodido, fustigado pela sua própria inconstância. O tempo autofágico, que se devora para sobreviver. E que como um redemoinho, desarruma os afetos do mundo e incita o olhar ao amanhecer poético. O percurso pelo píer sobre o precipício termina no espelho d’água. Os espelhos são materiais cujas propriedades apresentam a oscilação entre presença e ausência. A escolha pela água como superfície reflexiva reforça o contexto de impermanência em que a obra está inserida. O tempo se corrói. À beira do abismo, o perigo deu, mas é nele que se espelha o céu.

 

 

pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

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