Crítica semanal Daniela Avellar

QUEM OLHA DE LONGE ACHA QUE TÁ BAGUNÇADO, MAS É PORQUE NÃO CONHECE

“Quando a gente veio pra cá, a primeira coisa que eles disseram é que não podia plantar nada aqui [MINHA CASA, MINHA VIDA], para não modificar os prédios… essas babaquices. Aí eu devagarinho, fui plantando alguma coisinha (…)”, diz Niara, organizadora da Dja Guata Porã, uma horta localizada no terreno do muro de trás do programa federal de habitação da Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro. O projeto envolve a propagação de saberes indígenas em relação ao manejo de plantas, seus usos na alimentação e em processos de cura. A horta é lugar de relações e trocas entre humanos e não-humanos e transforma o anterior terreno baldio em um espaço aberto e abundante.

Todo dia (2019) é o nome da décima segunda edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, que esse ano propõe uma reflexão sobre o cotidiano dividida em três eixos. Planta baixa (2019), de Camila Bevilaqua e Pedro Zylbersztajn, é situado no tema Materiais do dia a dia, que busca discutir engajamentos críticos no contexto do Antropoceno. O trabalho em questão surge da experiência de Camila como antropóloga em trabalho de campo. Ela frequenta e é envolvida com os processos da horta supracitada há cinco anos. O fragmento com o qual abro o texto foi extraído de pequenas inscrições verbais presentes na obra, transcritos de áudios que compõem registros de câmera feitos no cotidiano de trabalho do lugar. Essas falas trazem passagens protagonizadas por Niara, organizadora da horta, aprendizes que lá trabalham, além da própria Camila. Os dizeres inserem-se em espaços vagos dentro de uma espécie de grid composto por frames dessas imagens.

horta texto

A busca por uma estrutura que não é documental e nem narrativa, a partir da edição desses vídeos e as consequentes escolhas formais, encontra pontos de contato com o que Camila comenta sobre as trajetórias dos indígenas que cuidam da horta. Niara e Dauá não realizam simplesmente um movimento unidirecional, de sair da aldeia e ir para a cidade, certamente seus deslocamentos envolvem maior complexidade. Eles consideram que se trabalhos derivam a partir do cotidiano da horta, isso deve servir para dar visibilidade e fortalecer saberes ancestrais indígenas, como uma maneira de transmiti-los ao homem branco.

É certo que uma horta é lugar de ecologia de práticas, de troca e preservação de saberes, de engajamentos corporais. Há uma circulação, uma espécie de bricolagem a medida em que o conhecimento, no caso, é formado a medida em que se age nos objetos. Em termos formais, como resolver na composição visual de um trabalho em arte essas questões? E quando a exposição é especificamente inscrita em uma dinâmica que evoca uma intersecção constante com a arquitetura? As imagens estáticas presentes no grid proposto por Camila e Pedro estão dispostas no chão da Bienal e trazem à tona gestos como o da capinagem e outras movimentações no espaço de trabalho cotidiano da horta. Se é dado um passo à trás, por parte do espectador, da situação formal colocada por Planta baixa, há uma estranha sensação de que algo parece uniforme, mas de perto é possível identificar uma certa confusão e desorganização em relação à disposição de colunas. Paradoxalmente, Niara diz sobre a horta “Quem olha de longe acha que tá bagunçado, mas é porque não conhece”, evocando o aspecto da rede de relações multiespécies constituída no espaço da Dja Guata Porã, um espaço para “a maneira como o índio planta”.

horta_grid

A composição visual presente em Planta baixa realiza algum sequenciamento de ações. As imagens dispostas trazem pequenos momentos de gesto, feito partituras propulsoras de ações futuras. É possível dizer que há no grid um processo, um senso expandido de tempo? Talvez o esquema e a organização em jogo, somado a escolha de associa-los à fragmentos textuais retirados de falas presenciadas, apontem para algo mais na direção de uma dilatação temporal do que um acontecimento ou evento singular capaz de chamar atenção para um fato, condensar o pensamento e conscientizar a figura do espectador sobre a intensidade de alguma prática.

É sabido que a arte não mais evoca necessariamente a veneração, ela está mais próxima da provocação de uma ruptura. Seu movimento agora a coloca em contaminação com outros contextos, inclusive os ligados aos diversos ativismos, e porque não uma horta indígena? Talvez, contudo, esse seja o caso de um possível desvio em relação à retórica da ruptura causada pela arte e uma abertura de caminho possível para pensarmos um movimento de contínua troca e interpenetração de meios, entre espectador e artista, entre artistas e colaboradores, embora esses termos aqui elencados pareçam epítetos que não dão conta, pelo contrário, reafirmam binarismos que não colaboram com a situação estabelecida.

Como abordar a prática comunitária, política e social como um tema? Será possível de fato falar a partir da vida de outras pessoas? Há uma tensão permanente entre tema e soluções formais. As imagens em sequencia na composição visual de Camila Bevilaqua e Pedro Zylbersztajn são distribuídas ora de forma horizontal, ora vertical e dispostas no chão do espaço expositivo. Quem as vê rapidamente experimenta um deslocamento da perspectiva cartesiana das coisas, assim como identifica no trabalho um outro esquema de narrativa e espacialização. Niara tem uma preocupação forte com a possibilidade do trabalho da horta ser apresentado como algo simplificado e reduzido. Os desdobramentos em questão devem sempre exercer um esforço na direção da expansão e fortalecimento dos conhecimentos indígenas que são ali territorializados. Planta baixa estabelece um outro tipo de linguagem, que se desprende temporariamente da prática ancestral característica da horta a medida em que se estrutura em um espaço específico, mas retorna à ela quando não se contenta em estar subordinado à um funcionamento de mera descrição dos processos vivenciados na horta, estabelecendo com o lugar uma relação de intercâmbio de pensamentos, saberes e teoria.

 

 

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: