Crítica semanal Vanessa Tangerini

Enviadescer para ser: ode aos corpos indefinidos 

“Bixa Travesty”, dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman, é um documentário que nos permite entrar lentamente no universo da artista-performer Linn da Quebrada. Oscilando entre um retrato íntimo e um retrato artístico-político, o filme termina nos revelando que, na verdade, o íntimo também é político.

Nesta crítica, me centrarei principalmente no corpo, no gênero e na construção de subjetividades. Porém, não está demais mencionar que o filme também funciona como um bom argumento para pensar o funk como lugar de resistência e expressão. Talvez, neste momento do capitalismo, o funk alternativo, sujo, das periferias seja um dos veículos mais radicais para propor conteúdos duros e críticos ao establishment. No filme, Linn menciona a capacidade dos bairros marginais para gerar as suas próprias estéticas, conteúdos e conhecimentos.

Lino. Laura. Linn. Bixa Travesty. Identidades não são concretas e estáveis. São contraditórias, mutantes e desobedientes. Em si, o pseudônimo “Linn” não tem uma referência ao masculino ou ao feminino. Eleaparece como expressão da identidade, mas também como estado temporário até uma nova. A única constante é a mudança.

A idéia de gênero é questionada através do conceito de “Bixa Travesty”, uma nova categoria na qual a binariedade masculino-feminino fica exposta como uma construção do relato patriarcal. A imagem de Linnda Quebrada não é a de uma travesti ou transexual que busca se enquadrar num estereotipo patriarcal da feminidade. A Bixa Travesty é isso que é e que não é. É uma mistura que, mais que buscar uma idéia determinada e fixa de gênero, expressa identidades particulares e dissidentes com a idéia binária tradicional.

No documentário o corpo é valorizado como um lugar de luta, mas também como experiência da nossa existência. A idéia de que o corpo é fundamentalmente o instrumento que temos para relacionar-nos com oentorno aparece no filme mediante a exposição, valorização e o elogio aos corpos dos seus protagonistas. O banho como ato de cuidar do próprio corpo (ou do outro) e como ritual de auto-preservaçãoé retratado diversas vezes no filme. Linn toma banho com a mãe, com a amiga Jup, com seu amante, com aamiga Núbia e, inclusive de mangueira na laje com amigxs.

Esses momentos se retêm na memória do espectador como pequenos atos de luta quando Linn sentencia:“Eu acho que ser feliz é uma responsabilidade, mas também um ato subversivo”.

Talvez a idéia de felicidade não pareça subversiva em si mesma. Porém, quando vemos a complexidade e a luta que implica ocupar um corpo-lugar não binário, fora do resguardo da tradição patriarcal, há outro lado (muitas vezes oculto) que se evidencia: o da tristeza e da solidão.

O corpo indefinido, o corpo bixa, o corpo travesty, as sexualidades assumidas no corpo e expressadas na música, sofrem a rejeição daqueles que preferem se preservar em identidades predefinidas que a tradiçãopatriarcal oferece para afirmar a sua própria identidade unitária.

Tanto Jup do Bairro como Linn da Quebrada falam das agressões cotidianas e das estratégias que inventam para se perseverar. É aí quando a felicidade (assim como o amor e o cuidado de si) se transforma em subversão. A decisão de não ser mais o que se foi para passar a ser quem se é, aceitando o risco de talvez não ser mais no futuro, não é um caminho fácil. Nesse sentido, o filme é uma testemunha comovedorade valentia e medo.

A decisão de mostrar a contradição como estrutura constitutiva da humanidade é um aspecto destacável do filme. “Bixa Travesty”, além de ser um documentário sobre uma artista, é também um retrato cinematográfico bem realizado, que mostra os matizes de um ser humano complexo e em construção permanente. A busca como forma de vida é, talvez, o conteúdo discursivo mais potente.

Em paralelo a esse retrato, assistimos a odisséiacotidiana (um pouco parodiada) pela busca da luva metálica de Ney Matogrosso. A luva, que foi um presente da Jup para Linn, havia desaparecido na desordem do seu quarto. O fato de a luva ter sido do Ney a transforma em um objeto fetiche, mas tambémem um objeto xamânico que lhe outorga valentia para subir no palco. No final surge uma metáfora a partir desse evento, que no começo parecia ser apenas uma banalidade cotidiana.

A experiência do filme é essa. Ir além da superfície do dia a dia para falar das profundidades do ser e dos problemas de transitar a existência desde o nosso corpo. Os corpos indefinidos são corpos transitórios, veículos da existência e estetizações da subjetividade. Permanecer na indefinição como luta e como busca é ter a coragem de assumir a nossa própria condição indefinida, transitória e frágil.

Vanessa Tangerini

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educa

 

 

 

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