Crítica semanal Mariane Germano

cartografias intocáveis

Composta por dez obras inéditas, a exposição O Real Intocável, de Ana
Maria Tavares, está em cartaz na Galeria Silvia Cintra + Box 4. Seus trabalhos
parecem tratar de cenários reais, como imagens de satélites de territórios
desconhecidos, até que o olhar permite acesso a novas camadas visuais que dão a
sensação de entrada em um sonho. Através de uma imagética aparentemente
familiar, que se desfigura e reconstrói diante de nossos olhos, a experiência é como
um mergulho no inconsciente. Detalhes que parecem falhas técnicas próprias de
imagens computadorizadas justificam o estranhamento provocado pela falha do
reconhecimento de um lugar.
Os trabalhos, inspirados por Carceri d’Invenzione, do artista e arquiteto
neoclássico Pianesi, são fruto da continuação de uma pesquisa que acontece desde
os anos 80. Em novembro de 2016, a Pinacoteca de São Paulo abriu a exposição
“No lugar mesmo: uma antologia de Ana Maria Tavares”. Entre mais de 160 obras
nas galerias, havia, no octógono, um site-specific rodeado por espelhos e composto
por uma escada, similar às de aeroportos, sobre a qual havia fones de ouvido no
topo. O áudio reproduzido continha sons de aeronaves que dão a sensação de
sobrevoar um campo em uma aeronave. O estranhamento familiar ecoa também
neste trabalho, através da vertigem proporcionada pela impressão de estar nas
nuvens mantendo os dois pés no chão.
Outra obra importante a ser destacada é a vídeo-instalação Airshaft, que
convida a uma fruição quase hipnotizante neste universo desconhecido. As obras de
Ana Maria Tavares incentivam o espectador a redescobrir a experiência com a
espacialidade, seja reproduzindo a sensação de um voo ou evocando cenários
distópicos de um futuro digital: o “glitch” das imagens se transfigura em uma falha
concreta, terrena, buraco negro de imersão sem volta. Para tal efeito, os
procedimentos da artista se valem de materiais como mármore e imagens
resultantes de diversas manipulações digitais. Tratam-se de trabalhos
simultaneamente digitais e orgânicos, como mapas de lugares semi-espaciais que
possuem aura de ficção científica pautada em fatos reais.

imagem incorporada no texto
uma das obras que faz parte da série Campo Fraturado. Voo em declínio

 

*A capa é fotografia da obra Primitive X-Ray

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé

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