Crítica semanal Daniela Avellar

PALAVRA, COISA

Eu mesmo juntarei a estrela ou a pedra que de mim reste sob os meus escombros (2019), foi a primeira exposição individual de Rafael Amorim, cujo título fora retirado de um poema de Ferreira Gullar. A mostra reuniu trabalhos dos últimos cinco anos de produção do artista no Centro Cultural Phábrika. É visível a força com que a palavra atravessa os processos de Rafael, ainda mais pensando em suas práticas enquanto também poeta e escritor. Não seria, porém, o caso de dizer que as palavras em seus trabalhos apareçam como dominantes, tal qual as propostas realizadas pela arte conceitual. São as palavras, no trabalho do artista, deslocadas para dentro da obra mas realizando uma inscrição outra. É como se Rafael Amorim encontrasse mesmo uma outra forma de escrever e portanto, de dizer (e de nos fazer vê-las).

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Em um plano de articulação entre o visual e o discursivo, o artista realiza um intercâmbio contínuo entre campos, flexionando um meio ao outro. Coisa, palavra. Palavra, coisa. Rafael se propõe a coletar durante um tempo os clips que encontra em seus deslocamentos, por diversos lugares que passa. Eles estão expostos atados à um tecido, construindo uma espécie de diagrama, ou mapa, composto por esse material tão comum de papelaria. Outrora o artista realiza uma impressão com esses clips em papel, desenhando a forma de um deles, destoante, com caneta vermelha. O papel também surge, em outra área da exposição, sustentando diversas tentativas de escrita com máquina de escrever que falharam, presas na parede, as vezes já um pouco amassadas e muitas delas repetidas.

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É possível dizer que os clips coletados por Rafael alargam um potencial performativo do ready made – enquanto objeto manufaturado e enquanto ato de nomeação, gesto linguístico. O procedimento duchampiano articula o verbal ao visual, liga palavra à coisa de um modo outro que não simplesmente a adequação de um termo ao outro. Para além da marcação de um campo enunciativo que tornaria capaz uma legitimação externa aos seus trabalhos, palavras e objetos nos processos de Rafael Amorim não se bastam – é preciso traçar uma outra modulação de relação que permita a produção de novas marcas.

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Se as histórias que perpassam os objetos pouco estanques e cheios de vida de Rafael são ficcionais, pouco importa. Na experiência como espectadora eu escolho acreditar. Me entrego às palavras do artista e gosto de imaginar o rapaz de quem bordou a gola da camisa com uma frase e encontrou só uma vez, de pensar nos jogos de marimba (os quais sempre deixava o outro ganhar) que estabelecia com os meninos na infância como fonte de primeiras experiências afetivas. Quando Rafael Amorim borda “baldio” na ponta de um tecido e na outra ponta é bordada “fé” por um transeunte que topa participar daquela experiência em plena rua pública (o artista pede que o colaborador borde sua palavra preferida), a palavra aparece em seu trabalho com toda a espessura, seja por seu contexto e significado, seja por sua presença e materialidade. Ou quando o artista caracteriza os clips, citados anteriormente, como vírgulas. A exposição de Rafael, para além de uma rápida viagem à lugares de afeto localizados em uma infância sensível, um encontro entre corpos ou um asfalto com aspecto baldio, constrói uma outra língua capaz de quebrar com regimes duros do que já conhecemos como tal.

Crédito das imagens: Charles Pereira.

 

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

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