Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

A fala e a forma na poesia visual: sobre Mínimas, de Gil Jorge

Há uma crueza na tradição da poesia visual. Ou mesmo o ímpeto de crueldade contra o leitor. Os textos curtos, que enganam o olhar e adiam a compreensão das palavras, o caráter corrosivo do poema quando ele se desfaz e se refaz em fontes e ortografias alteradas, a tematização franca da crise da poesia – tudo isso somado confere ao poema um traço de afronta ao leitor, convidado a, como na abertura de As flores do mal, de Baudelaire, reconhecer-se no poeta mau.

Não é diferente o que acontece nos poemas de Mínimas, de Gil Jorge, lançados nesse ano pelo Selo Demônio Negro, de São Paulo. A experimentação tipográfica que engana o olho (Jorge é especialmente hábil nesse procedimento) se encontra com uma série de frases ora céticas, ora sarcásticas, como: “o ego é igual a um ser elevado ao quadrado”, “planos / anos após anos após anos após anos após anos / planos”, “erro a cada esquina / a cada fim de linha / a cada escada / que se acaba / em nada”. Uma absoluta solidão na linguagem (“ouço o poço oco do fundo soluço que só eu ouço”), como se o poema se apresentasse à revelia da expressão do poeta, e solicitasse a leitura contra ele, apesar dele, devolvendo a afronta. O leitor hesita entre a ironia e o abismo no nada, e o poema se transforma no fantasma do seu fim.

Daí a sondagem sobre a linguagem, outra marca da poesia visual, que participa da poética de Gil Jorge. Talvez seja possível afirmar, nesse sentido, que depois da experiência, no século XX, com a poesia visual das vanguardas (mas não apenas com a poesia visual), o ato de leitura do poema não se separa do trabalho de tradução do texto pelo leitor. No caso de poemas como os de Mínimas, a tipografia diferente que adia a compreensão do texto e faz o olhar demorar na página, decifrando, devolvendo ao leitor a experiência do analfabetismo, a tradução começa nas relações semióticas entre imagem e palavra, som e sentido. A “coluna de lacunas” que é o poema está composta por material estrangeiro, bárbaro, babélico, de modo que a leitura se faz com o que se perde na tradução do poema pelo leitor – “Premissa” é revelador desse aspecto.

Por alguns momentos, em alguns poucos poemas, essa negatividade radical do texto dá lugar a uma tensão como o poeta que escreve, como se o próprio poeta desconfiasse do fim da poesia. É o caso, entre outros, de textos como “Acordo”, que “colore” a angústia, “Abra-se”, em que a caligrafia é índice da mão, do corpo que escreve, e “Voo da borboleta”, “viagem vertigem” tipográfica que figura a beleza mínima que se pode ler na paisagem cotidiana. A poética de Mínimas requer que sejam poucos os momentos de alegria: “abra se abrase me abrasse me” – em meio ao riso de regra irônico. Mesmo nos poemas eróticos, momento forte do livro, configura-se uma insistência na relação heterossexual, com a qual aparecem os conteúdos políticos de desigualdade de gênero, como é o caso de “Receita de suspiros”, com a objetificação do corpo feminino: “adicione 1 pênis […] acaricie a vagina”. Assim é que, em “Acordo”, quem fala no texto não controla o que aparece no texto, pois o poema mesmo é índice desse descontrole: “a cor do que em mim dor me” – a cor da dor que acorda no poema e dorme no poeta. Por isso, “Voo da borboleta” é um entre outros momentos altos da poesia de Gil Jorge, que, com Mínimas, põe em circulação, entre os livros de poesia, o melhor da nossa tradição experimental, em diálogo com outras poéticas do sujeito que vêm marcando especialmente a poesia contemporânea.

 

Luiz Guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

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