Crítica semanal Mariane Germano

há sujeira embaixo da sujeira

A exposição “A quem devo pagar minha indulgência?”, de André Griffo, é composta por duas salas da Galeria Athena. Na primeira, há pinturas renascentistas que fazem parte da série “Anunciação Vazia”, uma alusão à história bíblica da Virgem Maria recebendo o pedido do anjo Gabriel. Nas pinturas, que são releituras dos afrescos de Fra Angélico, os personagens estão descolados do cenário, inseridos abaixo dele, evocando atenção à arquitetura – o palco onde ocorreu a história.

Na segunda sala, personagens sagrados aparecem em cenários cotidianos, decadentes e até mesmo catastróficos para suas figuras. Como se tivessem sido descolados dos cenários de arquitetura clássica para serem inseridos em contextos reais e contemporâneos. Pinturas grandes, que parecem representar um ambiente comum como uma passagem subterrânea de uma cidade, possuem atos em miniatura que subvertem os papéis destes personagens. Esses símbolos sagrados estão encolhidos em cenários cotidianos, onde perdem sua glória.

Somente após uma imersão nas imagens, é que se torna possível enxergar pequenos símbolos e frases. De longe, há obras que parecem ser retratos fiéis à uma imagética católica, até que se revelam os personagens em miniatura que sustentam a cena. Estas mensagens e narrativas escondidas funcionam como elementos subversores da estética da beleza, da organização e da clareza iluminista, criando um choque de realidades.

Em “Talvez valha contar com a sorte”, um anjo, talvez o próprio anjo Gabriel, observa escravos a trabalhar. Há mensagens escondidas em vários lugares da imagem, como “Dizem q a igreja evangélica vai reconstruir a nação” – e abaixo: “Discordo: o q vai reconstruir a nação é o trabalho”. Na parede, há uma reportagem de jornal colada, seu título dá o título à obra. Seu subtítulo: “Direitos Humanos servem mais dominados que extintos”. Os pequenos símbolos subvertem a lógica de espaços cotidianos e sagrados, como uma mão armada que está na mesma passagem subterrânea que um altar religioso.

imagem atrelada ao texto
FOTOGRAFIA DE DETALHE DA PINTURA “A QUEM DEVO PAGAR MINHA
INDULGÊNCIA?”

 

A confluência de imagens destoantes coloca em pauta muitas questões atuais. Qual o lugar dessas figuras? Qual a nossa relação com elas enquanto sociedade? Elas devem estar em cenário junto à pautas políticas? De forma crítica e repleta de referências à história da arte, André Griffo questiona espaços que estão atrelados às estruturas de poder e valores que permanecem desde a Idade Média até a contemporaneidade.

 

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé

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