Crítica semanal Lucas Rodrigues

quase anjos. quase espectros

toda semana há em mim uma aflição sobre não saber o que escrever para a coluna da semana: chega sexta-feira e já estou me remoendo sobre a infinidade de possibilidades cogitadas e descartadas. urgência em falar, mas falar sobre o que? no caos de saber sobre o que escrever o salvador dos críticos perdidos, o google, sempre entra em ação e dessa vez ele foi certeiro: anjos revisitados, fotografias de adriana marchiori, fotógrafa de cena de porto alegre, sobre a ação performática do grupo jogo é a obra em que me debruço.

confesso que não conhecia o trabalho do grupo ou da fotógrafa, mas me encantei de imediato com a proposta da ação. há uma névoa da alma encantadora das ruas envolvendo os performers: a rua acolhe e espanca, contrasta e é cenário ideal. os corpos profanam o espaço urbano só pela sua presença: três corpos transitando entre o masculino e o feminino – um dandismo advindo das sarjetas, mas sempre austero e por vezes, blasé.

quase anjos (dentro)
anjos revisitados, de adriana marchiori

quando a fotógrafa apresenta um recorte detalhista da ação, como a opção por enquadrar as pernas de um dos performers apoiado em um hidrante a mesma parece revelar um mar de possibilidades do uso do corpo humano com o corpo da cidade, a relação ali estabelecida cria narrativas outras, remete ao povo da rua marginalizado, aos seres da noite que se veem chocados diante do thauma que é a cidade durante o dia; uma cidade que não os cabe.

a força das imagens reside na montação – técnica utilizada cada vez mais por artistas da performance, advinda da cultura dos club kids e drag queens – e estilização do corpo de modo a torná-lo um corpo performático que se choca com a modernidade e cotidiano das ruas a luz do dia, onde transeuntes passeiam e viram o pescoço para fixar em suas retinas três corpos que ali não cabem. reside um baudelaire e suas diversas máscaras em “anjos revisitados”, onde glamour, sarjeta, decadência e soberania se misturam de modo a apresentar corpos estranhos, quase carnavalizados, remontando um espectro de festividade.

há flâneur, um dândi e um trapeiro travestidos de anjos.

há uma ode ao povo marginalizado, aos queers, as drags e aos estranhos. sempre haverá um tom de perturbação ao trazer anjos para a luz do dia – porque se o sagrado existe, com toda certeza, ele é assim.

 

 

Lucas.png

 

Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: