Crítica semanal Pietro De Biase

SORORIDADE TRANS-HISTÓRICA

Compreender museus como espaços de legitimação auxilia a reflexão acerca do papel exercido por essas instituições desde a sua concepção, nos idos da Revolução Francesa. A visão majoritariamente branca e masculina da burguesia europeia do século 18 sobre a construção do museu acabou por invisibilizar determinadas produções artísticas. Já naquela época, Narciso encontrava feiúra no que não era espelho. A emergência do pensar decolonial nos anos 1990 tem provocado instituições culturais a reorientarem suas missões de pesquisa curatorial e seu papel na tessitura social.

Em cartaz no Museu de Arte de São Paulo – MASP, a exposição Histórias das mulheres, histórias feministas busca estabelecer um diálogo entre a produção artística de diversos períodos da História da arte. A mostra é dividida em dois núcleos: Histórias das mulheres, com obras de diferentes territórios, estilos e gêneros pictóricos realizadas até o final do século 19, e Histórias feministas, com artistas de diferentes nacionalidades que trabalham em torno de ideias/ações feministas no século 21. O MASP dá continuidade ao ciclo de discussões acerca de narrativas marginalizadas, a exemplo das Histórias da sexualidade (2017-2018) e das Histórias Afro-Atlânticas (2018).

A construção da urgência do debate feminista ganha novos contornos quando inserida no sistema de arte. Nos últimos anos, muitos dos museus ocidentais têm organizado exposições em torno da produção feminina nas artes visuais. Para além do viés curatorial, algumas instituições têm se desfeito de parte do seu acervo para dar lugar a artistas mulheres. Em 2018, o Museu de Arte de Baltimore vendeu sete obras de artistas estadunidenses consagrados, dentre Warhol, Rauschenberg e Kline, para criar uma verba específica para aquisições de obras de artistas mulheres e artistas não brancos. Cinco anos antes, a pioneira Academia de Artes da Pensilvânia, sem grandes anúncios, vendeu um Hopper visando a diversificação do seu acervo.

As aproximações entre arte e o feminismo conflui para um agir capaz de tensionar narrativas apagadas e expor um sistema que ainda ambiciona a perpetuação do modelo de hierarquia de gênero e raça. A proposição de outras narrativas se constituiu como um guia ao olhar pós-colonial, que anseia pela reviravolta do imaginário e suas reverberações na prática social.

Os diálogos entre os dois núcleos da exposição do MASP procuram traçar “genealogias feministas” possíveis entre produções femininas de diferentes épocas e territórios. No salão do primeiro andar, somos recebidos pela tela Cleopatra (1621) de Artemisia Gentileschi (1593-1956). Não é à toa que a obra inaugural seja dessa pintora italiana. A vida de Gentileschi projeta a imagética de sua obra. Associada ao movimento barroco, seu pincel guarda fortes influências de Caravaggio, notadamente por suas opções dramáticas e na sua manipulação da luz. Um fato marcará a vida e obra de Artemisia: o estupro. A pintora foi violada por um seu mentor/artista. Após o julgamento, a artista obteve a condenação de seu estuprador ao degredo de Roma. Longe da punição ideal, o exílio forçado de seu algoz se mostrou como sem precedentes para época. Muito se deveu à atuação inabalável de Gentileschi perante o tribunal.

A artista gozou de um prestígio inaudito à época, sendo patrocinada pelos Médici de Florença e por diversas Cortes europeias. Ainda que reduzir arte à sua autobiografia seja um disparate, é consenso de que a violência sofrida por Artemisia se relaciona em alguma medida com suas escolhas pictóricas. Roberto Longhi, historiador italiano, escreveu que das 57 telas produzidas por Gentileschi, 49 representam mulheres como protagonistas ou em posições de igualdade aos homens.

Ao deixar o barroquismo da Cleopatra de Artemisia, entramos no segundo núcleo da exposição. As Histórias Feministas são várias e complexas. A pluralidade de suportes revigora a urgência do debate acerca da violência e opressão experienciadas por mulheres em diferentes contextos.

Dentre os trabalhos em vídeo, está Judite decapitando Holofernes (2010) da artista sueca Imri Sandström. Trata-se de uma releitura da tela homônima de Artemisia Gentileschi de 1620. Pintada originalmente em 1611, a tela representa a passagem bíblica em que a viúva judia Judite degola o general assírio Holofernes, que ameaçava invadir sua cidade.

Muitos foram os artistas que propuseram releituras sobre essa passagem do antigo testamento. Caravaggio, Cranach, Pedro Américo, Klimt e até mesmo Mozart, em sua ópera Betulia Liberata. Mas nenhum deles conseguiu capturar a crueza visceral da cena como Artemisia. Tudo é pungente na tela da pintora. A espada que perfura a garganta do general conjugada à súplica do horror pela morte avizinhada. A expressão irascível de Judite e da criada que tentam domar os ímpetos corpulentos de Holofernes. Tudo é teatral. Tudo é verdadeiro. Pesquisas recentes já indicam que Judite seria na realidade um autorretrato da artista italiana, enquanto que Holofernes seria a representação de seu estuprador.

O diálogo proposto pela artista sueca com a tela seminal de Gentileschi caminha para estabelecer fricções entre os desdobramentos simbólicos da cena pictórica para o debate feminista contemporâneo. A partir de encenações entrecortadas por entrevistas com uma estudante de teologia e outra artista sueca Maya Eizin Öije, Sandström reconstrói a cena proposta por Artemisia, para discutir estética, dramatização, convicções, violência e os materiais a ela associados. A interlocução sensível que aproxima o trabalho de ambas as artistas é energizada por uma linha de sororidade trans-histórica, que se aglutina ao eixo curatorial da exposição e revigora o papel do Museu como espaço de sagração da pluralidade.

 

pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

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