Crítica semanal Vanessa Tangerini

Climax: A besta interna

O último filme de Gaspar Noé, Climax (ganhador do “Art cinema award” no Festival de Cannes) já se encontra disponível na Netflix. O longa é uma experiência cinematográfica particular e desafiante. Se o corpo pode ser pensado como um santuário e a dança como expressão, Noé demonstra que os santuários podem ser profanados e que as expressões são também sintomas. Nesse filme a linhas entre loucura, êxtase e dor são apenas imaginações feitas pela nossa necessidade de preservar a razão.

Justamente, o filme é um desafio à lógica e as convenções tradicionais do cinema. A câmera, mais do que um dispositivo relator, será uma presença. As imagens serão estímulos visuais a ser recebidos, não só momentos de uma história. O filme é o documento de uma vivência coletiva sintetizada na dança. A legenda que sentencia “baseado em uma história real” ilude o espectador colocando a idéia de narração numa estrutura não narrativa. 

O corpo central é a dança. A idéia de dançar não aparece apenas nos movimentos coreografados com propósitos expressivos ao som da música. O filme todo é uma dança. A dança do olhar será a parte central do movimento. Noé utiliza enquadres, movimentos de câmera e tomadas que atuam como complemento dos corpos dxs dançarinxs. O movimento não é somente um caminho predeterminado e estilizado com propósitos estéticos. Mover-se é sofrer a existência, se relacionar, transitar a vida, ser tomado por forças alheias e sobreviver à própria obscuridade. A dança, enquanto movimento, aparece como um ritual perverso e permanente, mas também como lugar da sensualidade e reivindicação dos impulsos primários. 

Crítica Sábado 05-10 Foto 1

Noé relata em uma entrevista que a filmagem foi feita em quinze dias, improvisando a maior parte do tempo e construindo a sucessão de imagens de acordo com o que seus atores/dançarinxs propusessem. Os longos planos-sequência (incluindo um de quase 42 minutos) eram gravados em meio ao caos. A música funciona como a principal estrutura sensorial e organizativa das imagens e do sentido.  O resultado é uma experiência dionisíaca na qual a dança retorna às suas origens rituais. Os corpos aparecem como função do ser e lugar de encontro com forças desconhecidas. Os personagens vão sendo tomados pela loucura, o êxtase e o delírio. Os sentidos aparecem como enganos da percepção e assistimos um relato do qual começamos a desconfiar. O espectador termina em um lugar no qual deverá se posicionar respeito às imagens. 

“Deus está com nós” afirma um dos personagens no inicio do filme. Não sabemos se é ironia ou afirmação religiosa, mas caso seja verdade, em Climax, Deus é um monstro sinistro e uma espécie de voyeur

Assim como em um clímax, o filme avança em direção ascendente até alcançar o caos. Mas não um caos como desordem, e sim como núcleo primário do nosso lado mais bestial. Se o clímax é o ponto culminante de uma progressão, após chegar nele só é possível descer. 

O filme nos deixa um vazio. A falta de desejo que surge após o cansaço da dança, após do esgotamento do corpo, após a impossibilidade da razão é também o final. A música é, não somente uma possibilidade de construção artística, mas também o lugar de encontro das nossas sensações e os nossos impulsos mais primários. Por debaixo das superfícies, os instintos e as sensações nos alertam sobre a existência de um mundo mais profundo. Uma obscuridade sem nome avança ao som da música.

Climax é um encontro com o cinema como acontecimento além da imagem. É um testemunho da progressão constante da loucura, dos nossos desejos não ditos e de uma bestialidade da qual nunca deixaremos de ser parte. 

Crítica sábado 05-10 Foto 2

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educa

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