Crítica semanal Mariane Germano

Greta, de Armando Praça

   A sequência de abertura de Greta, filme dirigido por Armando Praça, mostra o protagonista Pedro, interpretado por Marco Nanini, caminhando em transição lenta da luz amarela para a roxa, como um túnel que é preciso atravessar para deixar algo para trás e mergulhar na história. Esta sequência dita o tom do filme e termina em uma ambulância, onde Pedro está, de maquiagem borrada, acompanhando sua amiga transexual Daniela, que está muito doente. Este primeiro cenário simboliza uma das questões centrais, o cuidado incondicional com os outros como demonstração de afeto, mas que muitas vezes se tornam tentativas frustradas e unilaterais, que sempre terminam em solidão.

    Daniela enfatiza algumas vezes que Pedro precisa aprender a ser sozinho. Ele é enfermeiro e comete inúmeras ilegalidades para ajudar outras pessoas, mas é constantemente recusado ao afeto que distribui, evidenciando personagens em condições de marginalidade tanto sociais quanto emocionais. E mesmo assim, o roteiro é capaz de realizar um drama que não é trágico. Isto se deve às pitadas de humor que aparecem inesperadamente, mas também porque os personagens parecem reagir glamourosamente aos eventos, como uma nota grave que termina uma música em fading out. Um exemplo é a cena da performance de Daniela da música Bate Coração, de Elba Ramalho, imersa na estética da era de ouro do cinema hollywoodiano. 

 Ao fazer curativo em um fugitivo que ajudou a escapar do hospital onde trabalha, e com quem desenvolve um complicado relacionamento, Pedro conta a história de uma dançarina que, no momento de uma apresentação em um teatro, se recusava a sair do camarim e se apresentar, dizendo “I want to be alone”. Porém, o que ela não sabia é que ali havia um assassino pronto para matá-la, tornando esta a analogia perfeita para o filme: a solidão homicida. Composto majoritariamente de locais fechados, a aparição da cidade no longa está desfocada ou refletida nas janelas – em uma cena a silhueta de Pedro se mistura e sobrepõe aos edifícios. 

A fixação por Greta Garbo culmina em um momento de suspensão em que há um corte na narrativa para exibição de algumas filmagens da atriz em preto e branco, que destoam da paleta de cores do filme. Retornando às analogias musicais, penso nesta cena como um momento de ponte para o fim, na qual Pedro se transforma através da solidão. À sua indumentária, ao longo do filme, vão sendo adicionadas peças femininas, acompanhando sua mudança e adaptação aos baques da vida, tornando Greta uma bela e importante obra de resistência para o cinema LGBT nacional.

 

 

Mariane

 

Mariane Germano é estudante de literatura da UFRJ e de artes visuais na Escola do Parque Lage. Trabalhou com arte-educação no Instituto Moreira Salles e é professora do Colégio de Aplicação da PUC. Escreve resenhas e poemas. Tem mais playlists do que tempo pra ouví-las. Tópicos favoritos em textos e em mesas de bar: arte contemporânea e Beyoncé

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