Crítica semanal Pietro De Biase

O BALÉ DO INCONSCIENTE

Ao perfil de camafeu vitoriano, a imagem de Virginia Woolf se eternizou lânguida e aristocrática. Seu desaparecimento em 1941 no leito do rio Ouse na Grã-Bretanha sedimentou impressões sobre sua biografia atormentada e terrivelmente melancólica. O balé intitulado Woolf Works com trilha sonora do alemão Max Richter recupera três obras chave da escritora britânica para a coreografia assinada por Wayne McGregor lançada em 2015 no Royal Albert Hall em Londres.

O balé é dividido em três atos. Cada um inspirado em uma obra da escritora. Mrs. Dalloway (1925), Orlando (1928) e As ondas (1931). Em um coser poético, fragmentos de cartas e outros escritos de Virginia, e até mesmo uma gravação -única- da BBC em 1937, em que lê um trecho do ensaio Craftsmanship, são inseridos na obra de Richter.

Uma das características mais marcantes da literatura woolfiana é seu interesse pelo inconsciente. Já no final do século 19, o realismo literário já dava sinais de esgotamento. A primeira guerra tornara a realidade de alguma forma insuportável. O florescimento dos estudos da psicanálise reorientaram indivíduos aos seus universos interiores. O interesse em representar a verdadeira textura da consciência e suas associações particulares populou personagens de Woolf. Sua presença denota um grau de contradição, à medida que aponta a banalidade da vida cotidiana como locus nascendi da consciência expandida.

O simples gesto de deslocamento à floricultura como em Mrs. Dalloway engendra toda a sorte de indagações existenciais e anamneses pessoais que acompanharão a personagem ao longo do seu dia. O convite ao leitor a se embrenhar nas mentes das personagens ficou conhecido na literatura como fluxo da consciência e esteve presente não apenas na obra de Virginia, como na de Joyce, Faulkner, Lispector, dentre outros(as).

O mosaico de pensamentos fragmentados presente nas incursões mentais do fluxo da consciência se relaciona intimamente com a obra minimalista de Richter. O minimalismo na música advoga por composições simples, cuja fundamentos, como a dimensão repetitiva do pulso, as tornam quase hipnóticas. Os métodos composicionais são rudimentares, como o uso de acordes perfeitos e sequências elásticas da tonalidade, estruturas simples. Não há necessariamente uma linha melódica, nem estrutura harmônica propriamente dita. Embora melódicos, os fragmentos repetidos como em Meeting Again (Mrs. Dalloway IV) pavimentam o direcionamento da escuta para a métrica, inexoravelmente meditativa.

No segundo ato, Orlando, Richter promove o encontro do ritmo eletrônico com uma composição clássica, à medida do ritmo português La Folia. Não à toa, Orlando narra a biografia ficcional de um jovem poeta inglês do século 16 que se transforma em uma mulher e continua a testemunhar a história até os dias de hoje. O romance trata da transição ao corpo feminino com inédita naturalidade, assemelhada às infindáveis possibilidades de transformação experienciáveis pelo ser humano. A obra desafiou o racionalismo literário e as convenções sociais de uma Inglaterra ainda devedora do vitorianismo. Por seu formato biográfico, a narrativa quase não faz uso do fluxo da consciência, muito embora discuta os encontros fortuitos da personagem em seus 350 anos de relatos e suas digressões mentais. A realidade de Orlando, surrealista e híbrida, encontra um cenário cenográfico nos movimentos ora contemporâneos ora clássicos do compositor alemão.

E finalmente chegamos ao litoral d’As ondas, onde Richter nos introduz a leitura da carta de suicídio deixada por Virginia Woolf, pela dicção aquarelada de Gillian Anderson. O último ato retoma o ritmo contínuo do mar para dialogar com a compreensão da finitude e ausência propostas pela escritora no romance, em questão. O livro talvez seja o mais experimental de toda a obra woolfiana . Entremear-se pelas ondas é deixar-se habitar pelo lamento do fim. Não do fim no sentido tanatológico, mas de um fim da convencionalidade arcaica. A superficialidade atinge profundezas quando dissolvida no mar salgado da literatura virginiana. A consciência, como as ondas, únicas e implacáveis, encontram perenidade na inconstância. E assim, a sinfonia de Richter se avoluma e relampeja num crescimento rítmico, como das marés. O tom oceânico do último ato evoca uma simbologia emotiva do som.

Woolf, certa vez, declarou que as “palavras gostam que reflitamos sobre elas, antes de usá-las, e que não as temamos. Mas que apreciam também o silêncio. O devir inconsciente. Nosso inconsciente é o refúgio das palavras. Nossos recônditos mais escuros são sua luz”. A escuta diletante dos Woolf Works, para além de revigorar a obra da escritora, apontam para um universo vital de palavras ainda irrealizadas.

 

pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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