Crítica semanal Vanessa Tangerini

Ser vulnerável, ser resistente.

Em um simpósio internacional de filósofas realizado em 2015, Judith Butler realizou uma conferência chamada “Repensar a vulnerabilidade e a resistência”. Nele a autora propõe repensar a corporeidade e a vulnerabilidade nas mobilizações políticas.

O objetivo de Butler é sugerir um novo modo de entender a inter-relação entre vulnerabilidade e resistência. Para isso, a autora irá entender o corpo não como uma entidade, como algo autônomo, se não como algo que se define pelas suas relações (podemos pensar nas relações com o(s) outro(s), nas relações com a infra-estrutura, com os atos discursivos, etc.). Portanto, essa vulnerabilidade corporal não poderá ser entendida à margem dessa concepção de relações.

A filósofa argumenta que a demanda por acabar com a precariedade é encenada publicamente por aqueles que expõem a sua vulnerabilidade. Essa reação dos corpos torna-se então uma resistência corporal plural e performativa. Podemos entender o performativo em tanto que transcorre um acontecimento simbólico dentro de uma circunstância específica que, ademais, é política.

Em si usar o corpo como ferramenta é expor-se à vulnerabilidade. Butler argumenta que esses corpos, ao expor a precariedade, também estão resistindo e opondo-se à primeira. A vulnerabilidade é assumida. Não desde a submissão ou do temor, mas sim como forma de resistência.

Buscando debater a ideia de que a vulnerabilidade é o oposto à resistência, argumenta que a vulnerabilidade, entendida como uma exposição deliberada em frente ao poder, faz parte do significado de resistência política como ato corporal. Talvez, as imagens que circulam dos atuais protestos no Equador ilustrem bem esses dois conceitos que Butler procura unir.

Crítica Sábado 19-10 Imagem
Foto: EFE (telesurtv.net)

Do mesmo modo em que Butler busca desconstruir a concepção binária (e oposta) de gênero, nesta ocasião se propõe a desfazer a oposição binária entre vulnerabilidade e resistência. Considerando que o ideal masculinista (patriarcal) opõe a ideia de vulnerabilidade à de ação, entendendo a segunda como a superação da primeira, a filósofa afirmará que desfazer esse binômio é uma tarefa para o feminismo.

Talvez não seja à toa que nos encontramos com várias imagens de mulheres na frente das manifestações atuais no Equador, ou que a luta revolucionária no Curdistão tenha um forte protagonismo do feminismo.

Imagem de capa: Autoria de David Díaz Arcos

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educa

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