Crítica semanal Lucas Rodrigues

a fotografia em communitas: welcome home, de gui mohallem

  partindo da sugestão de um amigo o fotógrafo gui mohallem resolve partir para a “montanha”, para um “encontro”. Assim, com esses termos vagos, como se o universo que passaria a habitar exigisse um segredo que precisaria de manutenção a cada tempo. é assim que somos introduzidos ao primeiro texto “instantâneos do não-tempo” assinado por Q, do fotolivro “welcome home”, de gui mohallem.

“ao sunbeam e ao surprise, pelo caminho de casa”

  com essas frases o fotógrafo inicia o seu fotolivro que fora realizado realizado com pessoas reunidas, em uma fazendo no interior dos estados unidos, para celebrar o beltane, festa pagã celta realizada entre o começo da primavera e do verão que marca o reinício dos ciclos naturais.em um ritual o mundo encontra-se suspenso. o ritual suspende as regras sociais, as ideologias, as vontades e as desvontades: um ritual é um momento de suspensão que coloca os indivíduos ali presentes em uma liminaridade efêmera – há um começo, um meio e o fim de um beltane. esses indivíduos liminares agrupam-se entre si pelas communitas, ou seja criando vínculos por serem eles indivíduos em uma posição liminar.

  o texto de gabriel bogossian “os corpos das imagens” presente no fotolivro de mohallem fala do retorno que poupa do cansaço de tudo ter que ser nomeado. retornar a casa para bogossian é uma forma de reencontro, de proteção ao assombro que essa própria casa encerra e revela. e o beltane adentra a esse retorno, pois ele é uma religação com o sagrado, com uma fertilidade em sua expressão mais carnal.

  as fotografias de mohallem presentes em “welcome home” nos remetem a essa communitas de seres transitórios que se adornam e/ou se despem em um contato direto com a natureza. as imagens revelam seres humanos em todas as suas potencialidades de expressão rodeados por essa natureza-casa que se faz presente na maioria das fotos; nas nove primeiras páginas do fotolivro de mohallem vemos uma natureza em um verde escuro e fosco servindo de moldura ideal para os humanos e seus utensílios – há a presença de trailers, placas, roupas, evidenciando a produção humana em um contato direto que nos remete a dicotomia natureza/cultura, mas aqui colocada de uma forma integradora.

a fotografia em communitas (dentro)
welcome home, gui mohallem, 2011

  a presença de símbolos e figuras rituais fazem com que a magia e a fertilização do beltane faça-se presente no trabalho do fotógrafo. dentro da casa que os seres rituais dividem neste outro tempo-espaço registrado por mohallem podemos ler a palavra “temple” talhado em uma placa de madeira, marcando o status daquela localidade para a comunidade ali presente. os altares registrados por mohallem servem como mais um registro de produção humana na natureza, mas diferente dos objetos industrializados os altares são improvisados, irregulares, contendo elementos tantos naturais, como pedras e pedaços de madeira, quanto fotografias, estátuas de deuses, carcaças de animais e etc. existe um forte poder na criação de um altar, que se faz em um espaço de adoração e conexão com as divindades que estão presentes na festa, no rito.

  o trabalho de mohallem em “welcome home” não fetichiza a festa pagã, pelo contrário, seu trabalho como fotógrafo parte de dentro do ritual, como alguém que partilhou espaço, vivência e experiência com aqueles que ali com ele estavam. isso é evidenciado com a forma que os festejantes do beltane são retratados: na maioria das imagens o que o fotógrafo captura é o acontecimento em tempo real e presente, sem uma representação para a câmera, que ali funciona mais como uma espécie de caderno de campo de um observador participante. o fotógrafo faz-se um pouco de etnógrafo – como diz hal foster em “o artista como etnógrafo”.

   o olhar do interior para o exterior que gui mohallem apresenta não é o de um fotógrafo somente: é de um ser em communitas que divide liminaridades, morada e natureza.

 

 

Lucas.png

 

Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos.

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