Crítica semanal Pietro De Biase

CONFABULAR NO LUSCO-FUSCO

“Entre o sono e sonho,

Entre mim e o que em mim

É o quem eu me suponho

Corre um rio sem fim”

Fernando Pessoa.

De acordo com o dicionário, sono significa estado de repouso com supressão temporária de consciência; desaceleração do metabolismo corporal; falta de vontade de agir. Sono é um verbete que paulatinamente entra em estado de adormecimento no agir cotidiano. O gesto de cair no sono, ou até mesmo de se declarar sonolento, se revela cada vez mais raro nos dias de hoje. Brígida Baltar, artista carioca multimídia, explora os tormentos do adormecer no vídeo Sem Escuridão (2004/2019), atualmente em exposição no Espaço Cultural do BNDES no Rio de Janeiro, no âmbito de sua individual.

A obra retrata o anoitecer em Tóquio, a partir da perspectiva do rio Sumida. Ao percurso fluvial capturado pela filmagem, são sobrepostos textos sobre o excesso de luminosidade da metrópole. À medida que a luz solar se dissipa, o crepúsculo se instala e as luzes da cidade se acendem como em uma ribalta. Postes de iluminação pública, letreiros de néon, luzes residenciais. Todos cintilam na noite urbana.

O momento de lusco-fusco documentado no vídeo dialoga com o caráter de efemeridade sensorial, já investigado pela artista em outros trabalhos como em Coleta da Neblina (1996) e Algumas perguntas (2005/2019). Em Sem Escuridão, Baltar examina a forma como o desbunde luminoso obstaculiza o cair no sono.

A noite não é mais o reino da escuridão. O nascer e o pôr do sol não mais orquestram o tempo na cidade. A desregulação da luz afeta diretamente a produção de melatonina, hormônio indutor do sono. Outrora, este era programado para ser produzido justamente no momento do cair da noite. A raridade da escuridão tem contribuído para a deficiência de melatonina no organismo e, por consequência, no aumento do número de insones.

Ciosa da carência do repouso, a artista perscruta no lusco-fusco da maior metrópole do mundo. Por que do fascínio com cidades que nunca dormem? Será que isso se deve ao fato de que dormir se tornou transgressor, pois estabelece um território de recusa à lógica produtiva do capitalismo? Ao longo dos anos, desenvolvemos estratégias das mais astutas de combate à sonolência, na expectativa de que se conseguirmos enganar o sono, dobraremos o tempo. A permanência na vigília cristalizou-se como caminho para a fruição de tudo e todos que a pós-modernidade possibilita. Toda e qualquer experiência se crê inescapável para aqueles que permanecem acordados.

Tomando o sono como leitmotiv da obra, Brígida articula um espaço de confabulação sobre o momento da pausa e seus desdobramentos na realidade desperta. Pensar a fertilidade do território do sono ao acúmulo de afetos permeia a investigação empreendida pela artista. Em a Pedra do Sono, João Cabral de Melo Neto declara que o sono predispõe à poesia, sobretudo, pelo seu caráter de aventura, travessia de algo que não se pode descrever.

Tomando a reflexão cabralina, entrevemos o aspecto fabular e curativo do sono. Na antiguidade, os “templos do sono” eram espaços de cura, onde aos julgados enfermos era possibilitada a convalescência por intermédio de intervenção divina. Por oposição, o território da insônia tolheria qualquer chance de sanidade.

Sem escuridão nos solicita, pois, a um deslocamento para além da frenesi espetaculosa do quotidiano. E, essencialmente, em como podemos tecer uma rede de significados e potências nunca antes imaginada. O navegar insone de Baltar sobre o leito aceso do rio japonês mobiliza o olhar para o entorpecimento da luz e para um tempo em que a escuridão tornou-se artigo de luxo. É preciso assumir os sono para despertar.  zzzzzzzzzz

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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