Crítica semanal Daniela Avellar

ESCRITA DE CURVAS E SALTOS

trio a yvonne

Tentando organizar alguma das várias pastas em meu computador que contém um amontoado considerável de pdfs, encontro um livro de poemas da Yvonne Rainer, cuja existência eu não tinha conhecimento. Poems foi lançado em 2011 e reúne poesias escritas pela artista a partir de 1990, junto de algumas imagens com organização feita por ela. Em sua introdução, escrita por Tim Griffin, lê-se que Mallarmé já indicava uma correspondência entre dança e poesia quando diz que “um bailarino não exatamente dança, e mais sugere, através de curvas e saltos, uma espécie de escrita corporal… um poema independente de qualquer aparato propriamente de escrita.”

Trio A (1966) é das mais importantes coreografias de Yvonne Rainer. Apesar de ter sido pensada como um solo, foi performada pela primeira vez por três bailarinos em 1966. Sua versão mais notória é em vídeo, com a própria Yvonne executando a coreografia no Merce Cunningham Studios em 1978. Neste registro, a coreógrafa aparece toda vestida de preto, realizando movimentos de algum modo ordinários; há uma energia contida e certa ausência de esforço em jogo. Essa atmosfera ordinária é bem comentada por José Gil como uma “estranheza do trivial”.

A obra de Rainer, de um modo geral, busca quebrar o vínculo da dança com a referencialidade. Em Trio A isso fica visível com a presença de movimentos que valeriam por si sós, desprendidos de estruturas de representação. A chamada dança pós-moderna realiza uma crítica à expressão tão presente na dança moderna e mais do que isso, desvalendo-se de uma valorização da técnica, faz com que a dança apareça como outra função, virando ela própria um dispositivo de modos de subjetivação. José Gil identifica Trio A, propiciamente, como uma máquina desfazedora de formas.

A tese de que a coreografia de Yvonne Rainer busca os movimentos por eles mesmos e um afastamento radical da expressão é defendida por alguns historiadores e críticos na identificação de sua obra com o minimalismo. Por outro lado, há os que questionem como a procura por uma dança pura em Rainer pode ser um equívoco devido as agitações do contexto em que Trio A fora criada. Como uma obra não deixar-se-ia contaminar e reverberar pelas questões sócio-políticas que se impunham? A ideia de José Gil sobre dança como uma máquina produtora de subjetividade ajuda a pensar como Trio A traz e mostra o corpo através da imagem. E esse pode ser um tema bastante forte e pouco simples.

Trio A é a primeira parte de um espetáculo chamado The Mind is a Muscle. O título já denota uma aproximação entre o mental e o corporal, o intelectual e o físico. Recuperando a citação de Mallarmé no início do percurso dessa escrita, como haveria de ser esse poema independente colocado em movimento por Trio A? Uma linguagem capaz de dar visibilidade – e de que modo esta seria produzida? Como se manifesta o corpo nesses movimentos mínimos de Rainer?

E eis que na página 40 do livro Poems, com um poema escrito décadas depois e que leva o mesmo nome da coreografia mencionada, temos algumas palavras-pista. Escreve Yvonne: “not a flicker / of doubt / mars the flow / of arm / into hip / into knee / into floor”. Braços, quadril, joelho e chão – talvez aí o corpo por ele mesmo, sem virtuose, sem maiores adornos. Logo depois o poema segue: “not impeding / the forward momentum / of practice / of object / no ritual here / the weight of the body / is material proof / that air is matter / and mind’s married to a muscle”. O corpo ganha consistência enquanto prova de que o ar é matéria e mente e corpo não se separam. As ideias ganham forma, o corpo é conectado com a linguagem, ainda que não submetido ao discurso. Os movimentos de Trio A, deflagra o poema de Rainer, podem mesmo ser modos de escrever com saltos e curvas estranhamente triviais mas que certamente devém políticos pois relacionados à dimensão de um visível comum.

 

Daniela Avellar

 

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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