Crítica semanal Vanessa Tangerini

teatro show filmagem arquivo

Testimonios para invocar a un viajante[1] (depoimentos para invocar um viajante) é uma espécie de varieté queer, com números musicais, na qual veremos monólogos teatrais interpretados por atores/atrizes que representam a personagens que são parte de um filme que está sendo gravado pelo personagem principal, mas que se torna performática quando o público passa a formar parte do documento e o ator quebra a quarta parede para dirigir-se diretamente aos espectadores, que logo passarão a ocupar novamente o lugar de público da varieté dxs atorxs-interpretes, que agora improvisam um número musical.

Tentar definir um gênero determinado para essa obra seria como tratar de organizar a frase anterior.  Assim como os corpos dxs atorxs, o texto e o gênero da obra vão e vem entre o teatral e o performático.

O corpo, como ferramenta primordial do ator, será o eixo transversal da obra, evidenciando a possibilidade de ocupar duas funções em simultaneidade: a contradição de ser e não ser ao instante seguinte. Os corpos estarão em transição permanente.

Uma peça de teatro que é a gravação de um filme (para tentar invocar um personagem) que funciona como um arquivo, mas que dentro tem números musicais protagonizados por drags? Sim.

Crítica sábado 26-10 Imagem 1

Os atores/atrizes passarão da atuação de um personagem à apresentação da sua própria subjetividade atuando em cena. Da representatividade à performatividade, os corpos permanecem em desequilíbrio constante, indo e vindo entre o monólogo, o depoimento e o diálogo aberto ao público. Essa mudança não ocorre meramente por uma alteração da convenção cênica: para passar da representação ao show o/a ator/atriz ativará a percepção da sua atitude corporal para modificar-la.

Crítica Sábado 26-10 Imagem 2

Ao passar de um lugar ao outro, o lugar de enunciação se modifica, assim como a relação com o espectador. O/a ator/atriz, em plano de primeira pessoa, elaborará um jogo ambíguo com a representação, deixando em evidência os limites tênues da linha ator-personagem. Essa linha se tornará mais vertiginosa quando o personagem principal (que está gravando o filme) afirme “Meu nome é Patricio Ruiz” (nome do dramaturgo da obra).

A peça funciona como metáfora da construção de um arquivo sobre o amor, do qual fazemos parte como público e como testemunhas. Ao final, o ator virará a câmera com a que está gravando para filmar o público. Estabelece-se um jogo vertiginoso entre o ser, representar, apresentar e aparentar no corpo do/da ator/atriz que deixa em evidência a problemática construção da subjetividade.

A aposta cênica funciona como uma ação disruptiva na qual se interpela e se problematiza a ideia de categorias fixas. Há uma problematização do gênero como categoria (tanto do gênero como identidade, como do gênero teatral ou artístico). O ato de dragear-se aparece como uma espécie de ritual de identidade. E “o show como manifestação de visibilidade. O show como possibilidade de ser o que se é e se sentir amado.”[2]

[1] Dramaturgia: Patricio Ruiz

Direção: Maruja Bustamante

[2] Palavras da diretora (traduzidas).

 

Vanessa Tangerini

 

Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educa

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