Crítica semanal Daniela Avellar

UMA IMAGEM SOA BEM

regina vater sounds good 2

 

Em uma rápida incursão por uma biblioteca proposta em aula, encontro uma publicação em formato de caixa. Em sua superfície compreendo que tratava-se de um trabalho de Regina Vater realizado em homenagem à John Cage, chamado Sounds Good, que fora criado em 1989 mas publicado em 2003. Ao abrir a caixa, fantasiando encontrar ali talvez uma fita cassete, desenrolo uma sequência surpreendente de imagens organizadas em formato de sanfona. Cada um dos dezessete quadros continha uma imagem diferente de sorriso, retirados de pinturas e esculturas de momentos distintos dentro da história da arte, incluindo o sorriso do próprio John Cage, impresso em fotografia tirada pela própria artista.

Saí de lá com a sensação de já ter visto esse trabalho antes em algum lugar. Logo identifiquei a confusão, entendendo que fundira duas obras em minha cabeça. Me lembrei que Sounds Good era de fato desconhecido para mim e o conjunto de sorrisos me remeteu à Chorus II (1988) de Christian Marclay. Este nos apresenta um conjunto também de imagens de boca, mas no caso elas estão todas abertas. Não é possível saber se essas bocas estão cantando, rindo, gritando ou falando. O título do trabalho de Marclay invariavelmente nos remete ao universo da música. Poderia Chorus II ser identificado como intensivamente sonoro ainda que “silencioso”? Um “chorus” alude a ideia de uma canção, de um concerto, talvez executado coletivamente por aquelas bocas?

christian marclay chorus ii

Os trabalhos de Christian Marclay frequentemente discutem intercâmbios possíveis entre duas modalidades sensoriais que parecem culturalmente divididas. Essas duas qualidades seriam referentes à visão e a escuta, ou, no caso desse trabalho, à fotografia e a fonografia (que são próximas historicamente). Se há uma espécie de rachadura já estratificada entre esses dois modos de perceber e de sentir, é nela que um trabalho em arte pode ser capaz de agir, para poder produzir atrito entre duas partes supostamente desassociadas. E é dessa fagulha que é possível produzir incessantemente diferença.

Nesta perspectiva de zona de contato entre sonoro e visual pode-se inscrever Sounds Good, de Regina Vater. O nome é, neste trabalho, também curioso, a medida em que articula-se ao universo do som, mesmo nomeando um trabalho composto por “imagens silenciosas”. Talvez isso não seja a toa, visto que trata-se de uma homenagem declarada à John Cage. Enquanto é possível imaginar bocas entoando em uníssono um refrão a partir da relação com a imagem (mas ao mesmo tempo a extrapolando) em Marclay, é também possível compreender com Vater como um sorriso soa bem a partir de uma percepção e sensorialidade que se deixam amplificar. Me recordo de ter esperado encontrar uma fita k7 dentro da publicação, talvez tenha encontrado algo como uma partitura incomum.

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense.

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