Crítica semanal Pietro De Biase

A BIBLIOTECA E O ESPELHO

“Quantas vezes é preciso morrer para se alcançar a imortalidade?” 

Orfeu

O desafio da universalidade poderia residir no que Mario Pedrosa chamou de “cambalhota no cosmos sobre si mesmo”. A obra de arte, afilhada da dor, nasce como um convite à reconfiguração da relação com nós mesmos. A ela, nada escapa. Por um momento, ao deambular pelas salas da exposição Leonilson por Antonio Dias, atualmente na Pinakotheke Cultural de São Paulo, entrevê-se um percurso poético e amistoso traçado por Leonilson e Dias. A amizade entre os dois artistas atravessou a década de 1980 e auto irrigou as pesquisas plásticas de ambos. As obras em exposição datam em sua maioria da década de 1980, com exceção de uma. 

Um ano antes de sua morte, Leonilson presenteou Antonio com a Biblioteca e o Espelho (1992). O trabalho consiste na justaposição de duas peças de tecido onde foram bordadas as palavras biblioteca e espelho, esta última ilustrada por uma imagem do objeto. O que importa uma biblioteca e um espelho aos olhos de um artista moribundo? O caráter autobiográfico da obra de Leonilson, marcado por uma cartografia de afetos íntimos desarrumou muito da estrutura conceitual que norteou a arte nos anos anteriores. Para Lagnado, o artista imprime sua experiência, sua dor, divide com o seu espectador – agora um voyeur – um percurso difícil e corajoso de desnudar-se de forma mais intensa. 

A cartografia afetiva em Leonilson evoca uma abertura dos porões da interioridade. Em 1992, o artista morria de AIDS. A aproximação da finitude trouxe laconismo ao discurso poético do artista. Como se o vazio não possuísse mais espaço. Ele estaria por toda a parte, não se contendo mais em si mesmo.. À narrativa apresentada em a Biblioteca e o Espelho subjaz à projeção do silêncio do desaparecimento vindouro e de um corpo fragmentado pela doença. 

As bibliotecas e o espelhos povoaram a literatura de Jorge Luis Borges. Para o escritor argentino, a biblioteca simbolizaria o universo, que justificaria o ato intelectual que prescinde a necessidade de atuar fisicamente no mundo. O leitor “como Dom Quixote, em véspera de perpétua aventura, não saiu nunca de sua biblioteca”. A biblioteca borgiana, tal como aquela retratada por Leonilson, apela para o infinito aventureiro do desconhecido. Um acúmulo de afetos e dileções. 

O encontro dessa biblioteca afetiva com o espelho resvala numa suave desinência. Para Borges, o espelho é como a cópula, abominável, porque multiplica o número de homens. Lagnado completa que se trata de uma metáfora que sugere a multiplicação do número de contaminados pela AIDS. Os espelhos nos aproximam da morte, declarou o Orfeu de Cocteau. Na arte de Leonilson, o reflexo da morte sobre o espelho conforta a decrepitude de uma imagem esfacelada pela doença. A derradeira mirada. O último espelho.

As aproximações aqui cerzidas não passam de ilações, por óbvio. Borges e Leonilson alcançaram a universalidade, cada uma à sua maneira. Denota-se, no entanto, um caráter cosmopolita à obra de ambos. Se Borges teve a enciclopédia como sua matéria prima literária, Leonilson buscou fundar sua poética pelo discurso amoroso. A cegueira progressiva do escritor argentino impediu o vislumbre do espelho, que se tornou uma metáfora à desoneração da memória. Ausência. Já em Leonilson, o espelho efetiva a extensão de seu corpo na obra. Contendo, portanto, a mais sublime face de humanidade. Presença. 

Frequentaram estantes diferentes da mesma biblioteca de babel. Mas como bem dissertou Borges, se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem. Ordem.

 

 

pietro

 

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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