Crítica semanal Daniela Avellar

QUANDO INSTRUIR É EXECUTAR

Oulipo (Ouvroir de littérature potentielle) é o nome de um grupo de experimentação em linguagem fundado na França em 1960. Seus participantes utilizavam instruções na forma de restrições para produzir metatextos, acreditando que o ato de escrever consistiria em uma nova organização de informações pré-existentes. Com isso, o Oulipo atribuía um aspecto de máquina à linguagem, criando diversas engrenagens autônomas de fabricação de poemas.

É possível dizer que instruir e executar em um código de programação é algo bem próximo do “dizer e fazer” presente na teoria dos atos de fala de J. L. Austin, se em ambos os casos tratar-se-iam de ações simultâneas? Certamente podemos depreender articulações entre o modo de proceder e realizar do grupo mencionado às noções de algoritmo, programa e partitura, caras à contemporaneidade. A teoria citada anteriormente influencia um pensamento sobre a ideia de performativo, conferindo à linguagem um aspecto operacional.

J. L. Austin, no entanto, quando comenta sobre o caráter performativo dos enunciados, acredita que os mesmos teriam uma série de condições satisfatórias, referências de validação, para verificação de seu êxito. O autor assume a existência de um conjunto de regras de autorização e recorre à procedimentos aceitos e ritualizados. Já Paul De Man traz uma ideia de funcionamento automático da linguagem de um modo diferente, considerando que o gesto de ler não está atado à um entendimento final do texto, pois este nunca se basta. A leitura envolveria uma sequência de movimentos irreconciliáveis. Não haveria como compreender todos os diferentes movimentos embutidos em um texto, não há unidade. E é por isso que a performance é sempre múltipla, que a máquina, para De Man, explode, a medida em que maquina o texto e o performa.

As máquinas são culturalmente consideradas ameaçadoras e úteis ao mesmo tempo. A ficção científica frequentemente retrata histórias distópicas nas quais elas são questões paradigmáticas. As figuras do androide e do robô, presentes nesse imaginário, evocam confusões e inseguranças humanas em relação aos limites entre o orgânico e o inorgânico/técnico. Simondon diz que há uma forma de se relacionar com as máquinas, que é desejar seu assujeitamento total, de forma que elas virem meros objetos técnicos e assim evitaríamos possíveis ameaças fantasiadas.

De acordo com Simondon, essa forma de lidar com a técnica através de estratégias de defesa, nos impossibilita de atribuir subjetividade às máquinas. Para além disso, o autor diz que há uma aproximação entre a ideia de automatismo e o aperfeiçoamento do desempenho do objeto técnico. Como se a medida em que as máquinas tornam-se mais automáticas, mais são capazes de conectarem-se todas, afim de produzir ainda mais eficiência. Simondon traz um interessante contraponto a essa ideia, alegando que o automatismo seria, na verdade, um grau baixo de perfeição técnica. Na contramão, o autor acredita que para automatizar uma máquina, é preciso descartar várias possibilidades de funcionamento. O real aprimoramento não viria de um aumento do automatismo e sim na criação de máquinas cada vez mais abertas, com certa margem de indeterminação. É através dessa margem que elas podem ser sensíveis à informações exteriores.

O passeio breve pelas noções desses três autores aqui citados é capaz de auxiliar a leitura de obras ligadas ao grupo Oulipo, ou mesmo pode nos conduzir à uma instigante produção de metatextos utilizando como recurso tais instruções e restrições. Pois ambos os gestos podem ser como performar uma explosão da máquina, ou sua abertura de engrenagens, evitando que o pensamento sobre o aspecto técnico da linguagem, sobre o código e o algoritmo, sejam chancelados por duas vias curtas: a de que a informação deve estar totalmente neutra e subordinada às nossas ações, ou de que a programação contém alguma oculta intenção nefasta por excelência afim de nos ameaçar.

 

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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