Crítica semanal Pietro De Biase

CIRCUITO PERIPATÉTICO

A Escola Peripatética foi fundada por Aristóteles e tinha como pressuposto inicial o de desenvolver o pensamento filosófico empírico de seu fundador. Os peripatéticos como eram chamados os discípulos de Aristóteles tinham o caminhar ao ar livre como forma de ensino. A educação pelo deslocamento mostra-se como via possível ao alcance de um ethos de alteridade. O que importaria na descoberta peripatética? A artista Lia Chaia busca endereçar essa questão em seu Percurso, sua primeira individual no Rio de Janeiro na Galeria Aymoré. 

Ao percurso poético proposto por Lia, orbitam trabalhos que dialogam com a ideia de corpo em locomoção. Emprestar o corpo à obra se faz presente e recorrente na poética de Chaia. No vídeo Bolas (2016), a artista se veste com uma estrutura de balões de gás para percorrer as ruas de São Paulo. O corpo errante, hibridizado pelos balões ao mesmo tempo que confabula subjetividade captura o olhar pelos seus contornos plásticos. Balões que como uma membrana sensível isolam o corpo do atual embrutecimento urbano para elevarem-no a um estágio de totem ambulante. 

Já em Setamancos (2009), Chaia sugere uma nova forma de caminhar a partir de sandálias de madeira em formato de setas que apontam em diferentes direções. A proposta interativa mais uma vez é ativada pelo corpo, dessa vez aquele do(a) visitante, que ao deslocar-se pelo espaço expositivo portando os setamancos, fatalmente contrariará as direções estampadas nas sandálias. Vestir as sandálias torna-se uma provocação para errar pelo caminho. Deambular sem direção pré-definida esteve na medula do pensar peripatético. A itinerância inadvertida conspira para uma revelação sensorial. Ao convidar o(a) visitante a se apoderar da errância, está-se defronte a uma reflexão poética acerca de dos mais fugidios questionamentos existenciais da contemporaneidade. – E agora? Para onde?  

Mais uma vez, a artista discute a relação do corpo com a cidade. A abundância de placas, setas e direções nos grandes centros, ao mesmo tempo que se propõe a auxiliar os transeuntes, torna-se elemento de controle de movimento, metáfora para uma dimensão imperativa ao sujeito. Ao direcionar um percurso específico, a seta exclui todos os infinitos caminhos outros. Os setamancos de Lia incitam justamente à reapropriação dos roteiros individuais, inusitados, peripatéticos. 

Uma terceira obra do Percurso que aborda a tecitura de trajetos possíveis é Desenho coreográfico (2019) cuja solicitação à entrega total à experiência sensorial torna-se motor de sua ativação. A obra convoca o(a) visitante a cerrar os olhos e acompanhar com as mãos os meandros das linhas da parede. Não se conhece o caminho. Não se sabe onde ele termina, apenas onde começa. O itinerário tátil proposto na obra revela-se sinuoso e termina de maneira brusca. 

Em um dos aforismos mais bem-aventurados de Agostinho de Hipona, peripatético não assumido, Solvitur Ambulando alude ao resolver-se pelo caminhar. No pensar agostiniano, todos os caminhos deveriam se nortear pela Verdade única e transcendente. Na poética de Chaia, a construção do sujeito se dá ao longo da trajetória, num circuito que reclama pelo outro, o convoca e só com ele se completa.

 

 

pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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