Crítica semanal Daniela Avellar

POR OUTRAS BANDEIRAS

Em fevereiro deste ano publiquei um texto em minha página do facebook sobre a exposição Impávido Colosso, ocorrida na MESA, espaço de arte localizado no Morro da Conceição, no Rio de Janeiro. A mostra apresentava um conjunto de releituras da bandeira do Brasil feitas por mais de vinte artistas utilizando diferentes meios. Diante do momento que se impõe, seja no caldo indigesto no qual a política brasileira parece imersa, seja pensando como as lutas estão aparecendo por toda a américa latina, achei propício uma retomada do comentário sobre bandeiras. Replico aqui:

Ao entrar no corredor da casa eu ouvia uma artista a performar sua bandeira, “agora, agora, agora”, ela dizia repetidamente. Em uma sala havia um pequeno papel na parede escrito “vai peitar? tra-ves-ti”. No chão, dois monitores cortavam e limitavam a palavra progresso. Na praça em frente ao local, em três pedaços de pano de cores diferentes presos por hastes, lia-se “aqui, aqui, aqui”. Gestos como esses, dotados de ação e afeto no aqui e agora, são capazes de deter o que se convém a chamar de desenvolvimento mas sabemos como sempre esteve em contra fluxo em relação à tudo que há de mais vital.

O notável retângulo verde com losango amarelo centralizado e esfera azul celeste contendo “Ordem e Progresso” é a epítome da representação nacional. Quase impossível não associá-lo, nos últimos tempos, com falas nacionalistas insufladas por certas figuras do poder.

Acredito que discursos inflamados de diferentes direções podem caminhar para um autoritarismo a medida em que tendem a bradar contra a figura de um potencial inimigo e apostar na garantia de supostas figuras salvadoras, como contrapartida. Esse movimento depende de uma filiação insaciável à uma bandeira, uma adesão à um mote pré-determinado, custe o que custar. E o que ele produz simbolicamente são infinitas réplicas formalmente idênticas ao emblema em questão.

A multiplicidade de imagens que encontrei em Impávido Colosso me ajuda a pensar, com a perspectiva das lutas, a necessidade de produzirmos outras bandeiras, ainda que retalho, mesmo que tentativa e experimentação. Uma terceira margem que se abre no meio de um cenário de duras polarizações, criando espaço a ser povoado por uma variedade de formas que não estão dadas a priori. As réplicas da exposição advém do símbolo brasileiro mas não limitam-se à ele. Produzem incessantemente um impacto cromático e conceitual que afresca a constante sensação de que nós não teríamos mais escolha. Bandeiras novas coexistindo em diferença, mais consistentes e intensas, e isso não se impõe. Se cria.

 

Daniela Avellar

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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