Crítica semanal Luiz Guilherme Barbosa

Língua do opressor: hooks, Rich e o português

29. língua do opressor

Outras concepções de língua já se tornaram correntes ao ponto de porem por terra a ideia de que é preciso aprender gramática para falar e escrever bem. Nesse “aprender gramática” vai um mundo, e se a gramática da língua não se separa da gramática dos valores e poderes de uma sociedade, então é mais verdade que precisamos desaprender as gramáticas para falar e escrever melhor, aprendendo a desarmá-las. E a literatura, nesse sentido, é o campo da cultura em que se fazem novas gramáticas linguísticas e sociais, e se refazem as que existem, de maneira que estudar as línguas e se aventurar pela literatura são processos comunicantes de crítica de si e dos poderes.

Entre as concepções de língua que têm circulado no campo crítico está a que desenvolve brevemente bell hooks num dos momentos mais bonitos de Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade, publicado em 2013 no Brasil. Trata-se de um capítulo, pode-se dizer, sobre poesia, embora seu objeto seja o estudo do termo “língua do opressor”. É que as 11 páginas do texto na tradução brasileira são desenvolvidas a partir de um verso de Adrienne Rich lido por bell hooks quando entrara na universidade: “Esta é a língua do opressor, mas preciso dela para falar com você”. 

A leitura do poema onde achou esse verso marcou a escritora e professora, no sentido de guardar sentidos que transbordaram o que ela pôde compreender à época, e acompanharam desde então a sua trajetória. Por esse motivo, bell hooks entende a língua como acontecimento que desborda fronteiras, principalmente as fronteiras entre nós e as palavras. Por isso, a leitora resiste ao ler o verso de Rich, resiste a adotar a expressão “língua do opressor”, pois o termo submete o sujeito a um apagamento de si na língua, o que se revela, por exemplo, pelo poder que a norma-padrão de uma língua exerce sobre pessoas exiladas nessa língua.

Ao mesmo tempo, uma língua é um murmúrio incompreensível, toda língua é, a princípio, bárbara. Assim é que a experiência histórica da língua inglesa, quando imaginada sob a perspectiva dos negros em situação de escravização, cujas línguas não serviam para se defenderem, configura uma memória traumática para essa população: “O próprio som do inglês devia aterrorizá-los”, imagina hooks, e o mesmo podemos imaginá-lo em relação ao português, outra língua da escravização. Essa mesma língua, no entanto, torna-se, no contexto diaspórico, um idioma comum possível para o exercício da solidariedade política entre escravizados e seus descendentes. A “língua do opressor” é, por isso mesmo, uma língua de resistência.

As marcas da resistência foram e são continuamente produzidas pela cultura da diáspora e inscritas nas gramáticas das línguas. Por isso, é possível reconhecer variações gramaticais atribuídas, em inglês, ao “vernáculo negro”, conforme nomeia hooks, ou, em português, à variedade popular do português brasileiro. Proposições teóricas como a do “pretoguês”, por Lélia Gonzalez, ou a do “racismo linguístico”, por Dante Lucchesi, devem estar à tona do nosso imaginário sobre o português brasileiro, e as línguas do rap ou do funk, o português favelado ou rural, os estilos de Machado de Assis e Carolina Maria de Jesus precisam ser imaginados como gestos de produção de “um espaço para a intimidade” da população negra, e não vai haver democracia brasileira sem que se elabore essa diferença entre a violência da “língua do opressor” e a “intimidade” que torce essa língua para a produção da solidariedade sob a memória da escravização.

 

 

Luiz Guilherme

Luiz Guilherme Barbosa
Professor de português e literaturas no Colégio Pedro II e doutor em teoria literária pela UFRJ. Escreve aos domingos sobre relações entre arte e literatura, arte em contexto digital, arte e política, e outras formas de desvio

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