Crítica semanal Daniela Avellar

FAÇA UMA SALADA

As chamadas event scores, que em uma tradução para o português poderiam se chamar “partituras-acontecimento”, são pequenos textos propositivos surgidos nos anos 60 e praticados por muitos artistas identificados com o movimento Fluxus. Essas peças indicam pequenas ações envolvendo gestos simples, ideias e/ou objetos do cotidiano. As partituras são abertas para a interpretação do leitor, que pode realizar a performance/proposição da maneira que quiser, recriando o acontecimento.

Alison Knowles (1933-) cria em 1962 sua partitura-acontecimento mais conhecida, chamada #2 Proposition, onde lê-se somente “Make a salad.” (faça uma salada). Essa proposição foi performada pela primeira vez em outubro desse mesmo ano no Institute for Contemporary Arts in Londres, no contexto de um evento ligado ao Fluxus. A instrução indica apenas que façamos uma salada, não se tratando de uma receita ou de alguma salada específica. A partir do momento que o gesto de fazer uma salada por parte da artista é realizado em uma instituição de arte, este já não consiste mais em um hábito mundano, como milhares de pessoas fazem todos os dias em suas casas. Não é mais como escolher alguns vegetais a gosto e misturar. Por parte do espectador, há uma compreensão de que o que será visto nesta situação específica é algo que se inscreve, de algum modo, no domínio da arte.

O deslocamento da feitura de uma salada para o espaço da arte, sem dúvidas, é algo com uma articulação bastante direta à noção de readymade. Se o readymade de Marcel Duchamp (1887-1968), enquanto procedimento, realoca objetos cotidianos e triviais em museus e galerias (e também nos discursos), é possível dizer que a partitura-acontecimento, através da linguagem, realiza um movimento semelhante. As instituições de arte tem, evidentemente, uma agência notória em moldar o pensamento sobre o que é arte e o que não é. No entanto, o interessante de uma proposição como a de Alison Knowles indica algo além – o fato de que essa instrução poderia ser realizada em qualquer outro espaço.

As partituras-acontecimento não dependem dos espaços tradicionais de exposição e circulação de objetos de arte. A permanente mobilidade característica dessas peças, assim como o interesse dos artistas ligados ao Fluxus por outras noções de relação entre sujeito e objeto, mais implicada e reciproca, e um outro modo de estar situado na temporalidade (consciência imediata do presente) abrem a possibilidade até dessas proposições não precisarem ser tão notórias para acontecerem. Fazer uma salada pode ser algo que se disperse no fluxo do dia, um pequeno exercício, ou mesmo pode ser algo que se desdobre em infinitas possibilidades de interpretações. Nesse momento havia uma busca muito evidente por de fato quebrar a barreira que separava arte e vida. Fazer uma salada pode não ser explicitamente arte, mas tampouco é só fazer uma salada. E isso a partitura nos indica de modo contundente. Talvez a salada seria algo que, a partir de #2 Proposition, se encontra em um interstício entre arte e não-arte.

Em 1992 Rirkrit Tiravanija (1961-) transformou a 303 Gallery, em Nova Iorque, em uma cozinha, quando serviu arroz e curry tailandês para os visitantes da galeria. Esse acontecimento tornou-se notório e seu caráter participativo tem uma origem localizada nas experimentações ligadas ao Fluxus na década de 60. Alison Knowles já pensava, nessa época, na criação de ambientes que articulassem comida, arte e estar junto. Embora os contornos fossem um pouco diferentes. Em relação aos artistas da época ligados ao movimento, havia uma preocupação em uma criação de trabalhos em arte que não fossem pessoalizantes, que não carregassem a carga da autoria e as ressonâncias da identidade do artista. Essa forma de pensar e a expressiva ausência de artistas mulheres ligadas ao Fluxus poderiam impedir uma leitura feminista de #2 Proposition, mas com o passar do tempo existem questões que de algum modo se impõem. A artista chega a dizer em entrevista que sua partitura sempre foi sobre refletir a respeito da questão do doméstico através de uma pequena receita de ação.

No ano de 2014 Knowles realizou mais uma das versões de sua partitura-acontecimento no MoMa PS1, em Nova Iorque, dessa vez se utilizando de plantas não convencionais, presentes no jardim que a organizadora do evento plantara no museu. Além dessa novidade, a artista teve uma preocupação específica com o não-desperdício, alertando os participantes/espectadores a não deixarem sobrar nada. Sobrepõem-se aí as inevitáveis camadas ecológicas, ambientalistas e feministas. Um dia os artistas ligados ao Fluxus desejaram subverter os mecanismos do sistema da vanguarda, hoje a partitura-acontecimento enquanto um dispositivo de linguagem fundamentalmente aberto é capaz de se reatualizar e irá (porque não?), de forma permanente, atualizar-se conforme os problemas do mundo.

 

Daniela Avellar

 

Daniela Avellar vive, cria e escreve no Rio de Janeiro. Graduada em Psicologia, atualmente é mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense

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