Crítica semanal Lucas Rodrigues

pulsa

               voltando a operar com força total nesse pequeno amontoado de palavras que discorro sobre trabalhos fotográficos e performáticos que trazem o corpo como ponto de ebulição criativa, debruço agora sobre tulsa do fotógrafo americano larry clark.

            “uma vez que a agulha entra, ela nunca sai”, essa é uma das frases iniciais do icônico fotolivro de clark, lançado em 1971, onde o fotógrafo apresenta o cotidiano de jovens viciados, seus amigos, nos anos sessenta em uma cidade do estado do oklahoma, estados unidos.

            tulsa é considerado o trabalho mais visceral de clark. podemos observá-lo através de uma visada etnográfica sobre a juventude e rebeldia de uma geração aparece confinada em uma espécie de vida adolescente secreta, como relata o fotógrafo. há um modus operandi próprio do grupo que só clark poderia capturar, pois ele fazia parte do mesmo, era um daqueles jovens desvairados obcecados por sexo, armas e drogas.

pulsa (dentro)
fotografia de tulsa, de larry clark, 1971

            a juventude branca de oklahoma sorri para a câmera de clark enquanto injetam em si mesmos as mais variadas substâncias. garotos inconsequentes divertem-se em empunhar armas, ostentando-as tal qual um troféu adquirido em um concurso de soletração qualquer. homens-meninos parecem modelar semi nus diante de espelhos vangloriando seus músculos rijos e boas aparências. casais fazem sexo diante da câmera de clark e ostentam uma nudez nada envergonhada – há uma cumplicidade entre fotógrafo e fotografados que a crueza do preto e branco quebra como maneira de fazer com que o espectador possa captar todas as sensações que as imagens de clark refletem: não há culpa ou criminalização nas imagens de tulsa, o fotógrafo somente cria um retrato fiel do que viveu, não colocando nenhum juízo de valor no que retrata, tanto que, somente anos depois que clark se dá conta da capacidade de escandalizar intrínseca de seu trabalho. A primeira vez que viu as impressões de tulsa o mesmo pensou “eu tenho que queimar todos os negativos e me matar, ou ir a los angeles e tentar publicá-lo”.

            de certa forma tulsa funciona como ponto de partida para quem deseja se enveredar pelos trabalhos de larry clark, que também é cineasta. seu trabalho mais conhecido no cinema, kids, seu primeiro filme, como na maioria de seus trabalhos, o foco é colocado sobre um grupo de jovens onde sexo e drogas são tão banais quanto assistir tv. por essa abordagem naturalista da depreciação e rebeldia que parece incólume à juventude clark já foi duramente criticado, mas o que não podemos negar é que seu trabalho desperta interesse pela desatenção e banalidade que retrata temas tão caros a moralidade cristã de nossos tempos.

            tulsa pulsa porque é visceral e natural – e, diferente de outros trabalhos do artista, não fetichiza, somente revela, particulariza , evidencia: manifesta.

 

Lucas.png

 

Lucas Rodrigues é ator, performer e artista visual. Graduando em Antropologia na UFF e pesquisador da cena contemporânea teatral, no Laboratório de Criação e Investigação da Cena Contemporânea. Coordena o Sem Cabeça Núcleo de Performance, da Companhia Coletivo Sem Órgãos

 

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